O mais pesado legado de José Sócrates

17/12/2011

O legado mais pesado que José Sócrates deixou não foi a dívida ou o défice das contas públicas. Foi antes a cultura política. A forma desonesta e irresponsável de fazer política, sem sentido de Estado, ignorando a realidade e desprezando as pessoas.

Durante 6 anos foi cultivada uma forma de estar que descredibilizou por completo todo e qualquer actor político. Para se desempenhar cargos políticos era preciso ter capacidade de spin, ser-se exímio na arte do remoque e do insulto. Ter uma enorme cara-de-pau.

Infelizmente este tipo de “doença” não se ficou só pelo PS, mas propagou-se a todos os partidos. Mas sendo o PS a origem da “infecção” é normal que os mais afectados/infectados estejam e continuem por lá. Pedro Nuno santos, João Galamba, Pedro Silva Pereira são os maiores exemplos.

Erradicar esta forma de estar e de fazer política é algo que vai demorar tempo. Não creio que tenha que demorar uma geração, mas vai demorar e custar. Mas a solução é simples. Basta que o cidadão se interesse e participe mais na política, elegendo gente decente.


Sócrates vs Passos Coelho: Ficou claro como água

21/05/2011

O debate de ontem não surpreendeu quem anda atento à vida política, e olha para ela sem clubite. Mostrou um Sócrates nervoso sem propostas e sem soluções, e um Passos Coelho seguro e sem medo de discutir as suas propostas e medidas concretas.

A táctica de ambos esteve bem à vista logo na parte inicial. Sócrates ia preparado para empurrar o debate para o programa do PSD (nomeadamente as propostas mais polémicas), enquanto que Passos Coelho tinha como objectivo escrutinar as responsabilidades do Governo.

O PM terá dito algumas 6/7 vezes que se o PSD quer ganhar eleições tem de discutir as propostas que apresenta (Curiosamente não pensa o mesmo do PS. Parece que o partido do Governo está escusado disso). Passos Coelho esteve bem, nunca se esquivou e discutiu sobre tudo.

O candidato a PM, por seu lado, tentou fazer a avaliação da Governação. Conseguiu e bem, em algumas ocasiões, cumprir esse objectivo. Mas o facto é que os temas resvalaram muito para o programa do PSD, porque Vitor Gonçalves deixou que Sócrates liderasse o debate.

Sobre isso um aparte. Sócrates raramente respondeu ao moderador. Divagava durante 30 segundos e voltava ao PSD, terminando as intervenções com perguntas a Passos Coelho. Às tantas Vitor Gonçalves até se queixa de estarem desde início no mesmo tema. A culpa era dele, não teve pulso.

O primeiro terço do debate foi o pior sendo preenchido com ataques, rasteiras, acusações e sem ideias. O terreno preferido de Sócrates, onde tem espaço para os seus truques de “ilusionismo”. No debate com Portas sacou da capa vazia, ontem de um DVD. Patético.

À entrada do 2º terço do debate Passos Coelho começa finalmente a falar em propostas e a partir daqui viu-se claramente a diferença entre PS e PSD. Passos Coelho foi objectivo e concreto ao expor medidas (ainda que polémicas). Sócrates optava por fugir e desviar para o PSD.

A certa altura Sócrates responde finalmente a uma pergunta de Vitor Gonçalves mas… com generalidades. Disse que iria combater o desemprego com “crescimento económico, mais qualificações, mais oportunidades“, e logo desviou as atenções para as propostas concretas do PSD.

Aos 40 minutos de debate já se tinham discutido propostas do PSD em 3/4 domínios (Saúde, Economia, Trabalho). A táctica do PS estava a vingar, mas o que Sócrates não contava era que isso fosse uma desvantagem. Estava à vista a falta de ideias do PS e a força do PSD.

Sobre um dos temas em voga, o da baixa da TSU acordada com a Troika, mais do mesmo. Sócrates respondeu a medo e genericamente “vamos estudar e descer moderadamente” e logo desviou para a proposta de Passos Coelho, acusando-o de ter apresentado apenas a parte boa.

É preciso ter uma grande cara de pau para se dizer isto, depois daquele anúncio de acordo com a Troika a 3 Maio. E neste domínio da lata e do delírio, sublinhar também que Sócrates voltou a dizer que Portugal não precisava de ajuda externa, antes do chumbo do PEC 4.

Aliás os últimos 10 minutos foram trágicos para o PM. Sócrates já sem armas para atacar (leia-se insultos, acusações, remoques) e sem ideias, começou a por em prática a táctica que usou em 2009 com Manuela Ferreira Leite. Chamar pessimista, maliedicente e anti-patriota a Passos Coelho.

Conclusão: o debate foi um bom espelho da realidade. E ficou tudo clara como àgua. Sócrates inseguro a falar de intenções, mas sem apresentar uma única medida. Passos Coelho confiante e firme, deixando medidas concretas e objectivas, sem medo do voto dos portugueses.


José Sócrates versão 1.0 (última parte)

03/05/2011

Este é o último posta da saga “José Sócrates versão 1.0″ que tem por objectivo demonstrar as cambalhotas, as mentiras, a demagogia, o descrédito e a incompetência de José Sócrates. Recordo que estas foram frases que proferiu, em 4 Fev 2005, num debate com Santana Lopes.

O país está pior [...] E há 3 factos absolutamente indesmentíveis. Em 1º a economia portuguesa teve o pior crescimento desde 1944 [...] 2º facto: a economia portuguesa foi aquela que registou a maior subida do desemprego na Europa [...] 3º facto: as contas públicas em Portugal estão hoje piores do que estavam há 3 anos. Está pior o défice e está pior a dívida pública, que aumentou

Eu estou aqui para recuperar a confiança em Portugal. Eu estou aqui e tenho tido palavras de rigor, palavras de exigência e palavras de trabalho [...] Eu estou aqui porque acredito em Portugal e porque acredito nos portugueses

Pois… mas ao invés, descredibilizaste Portugal, pioraste o défice e a dívida pública, mentiste e enganaste… e portanto os portugueses já não acreditam em ti.


José Sócrates versão 1.0 (parte VI)

02/05/2011

Esta será o penúltimo post com transcrições do que disse José Sócrates a 4 Fev 2005, no frente-a-frente com Santana Lopes, a duas semanas das Legislativas 2005:

Com maioria absoluta [...] os portugueses sabem que o PS não quer esse poder para o utilizar apenas para ter mais poder, para desprezar as oposições ou para desprezar o parlamento [...] quer a maioria no parlamento para que aquilo que é o interesse geral se possa sobrepor aos interesses particulares

Se o PS ganhar as eleições, o Governo que sair destas eleições será um bom Governo [...] feito com pessoas credíveis e pessoas capazes [...] Um bom Governo que tenha sentido de Estado, formado por pessoas credíveis, que não passe a vida a queixar-se do passado, a invocar pesadas heranças, e dizer mal de quem o antecedeu


José Sócrates versão 1.0 (parte V)

01/05/2011

Se houve temas prioritários nos anos de governação Sócrates/PS foram os temas fracturantes. Porquê? Talvez para desviar as atenções do essencial, para o acessório. Vejamos o que pensava Sócrates em 4 Fev 2005 no debate com Santana Lopes:

O Dr. Santana Lopes quis introduzir na campanha estes temas a que ele chama os temas da civilização. Clonagem, casamento homossexual, eutanásia [...] não são estes os temas da agenda política [...] É por isso que o programa do PS não prevê nada no domínio do casamento homossexual, nem da adopção de crianças

[...] tudo isso é apenas para não querer discutir aquilo que se deve discutir. E aquilo que se deve discutir são os resultados desta governação [...] Transformar esses pontos naquilo que é o centro de debate político, verdadeiramente parece-me ser um engano [...] os portugueses não estão à espera que essas sejam as questões fundamentais


José Sócrates versão 1.0 (parte IV)

30/04/2011

O debate foi em 4 Fev 2005 e colocou de um lado Santana Lopes do PSD e José Sócrates do PS. As eleições seriam dali a 15 dias e as sondagens davam maioria ao socialista que falava desta forma:

150 mil empregos. Isso é possível e está ao nosso alcance [...] Vocês não acham que é o momento de o país olhar para o desemprego em vez de se pôr, confortavelmente, à espera que isso passe? Esperar que passe não é solução. Como é que se cria emprego? Bem sei que é nas empresas. Não é o estado que resolve isso, mas pode ajudar

A qualificação dos portugueses é a chave para que os portugueses possam ter mais oportunidades e para que possam obter um emprego na economia cada vez mais exigente e globalizada.”

Desta vez não resisto a fazer dois comentários: 1) Em 2005 a taxa de desemprego estava nos 6,5%, hoje está nos 11%. 2) É com as Novas Oportunidades que Sócrates queria prepara os portugueses para a “economia cada vez mais exigente“?


José Sócrates versão 1.0 (parte III)

29/04/2011

E continua o discurso de Sócrates no debate que travou com Santana Lopes, a 4 Fev 2005, faltavam duas semanas para as Legislativas 2005:

Com o PS a pobreza vai voltar à agenda política. O combate à pobreza vai ser uma prioridade [...] Não peçam a um socialista para virar a cara para o lado quando existe pobreza em Portugal

Tivemos congelamento de salários na Administração Pública nos últimos 3 anos. Isso não pode continuar. É socialmente insustentável e, aliás, injusto [...] Eu aumento os salários públicos, com moderação

O que caracterizou estes 3 anos foi um divórcio total entre o Governo e a Administração Pública. Houve uma guerra ideológica a tudo o que era público, tentando denegrir os serviços públicos e denegrir a Administração Pública


José Sócrates versão 1.0 (parte II)

28/04/2011

Transcrevo mais um excertos do que disse Sócrates a 4 Fev 2005, 15 dias antes das Legislativas 2005, no frente-a-frente com Santana Lopes:

O país tem de vencer esta onda de pessimismo e descrença em que caiu, e eu julgo que só poderá haver uma mudança para a confiança, que ajude a economia, que ajude o investimento, que ajude a criar mais oportunidades, se houver um novo Governo. Um Governo que estimule a confiança do país, um Governo sério, credível, capaz.”

Há aqui também um julgamento a fazer, um julgamento sobre estes últimos 3 anos. Esse comportamento de quem prometeu nas eleições baixar impostos e, quando chegou ao Governo, não os desceu, mas, ao contrário, subiu-os, tem de ser penalizado, porque é negativo para a democracia, é negativo para a confiança [...] foi nesse momento que tudo começou a ruir. Foi no momento da falha dessa promessa eleitoral


José Sócrates versão 1.0 (parte I)

27/04/2011

Depois de 2,5 anos de Governação PSD-CDS, Jorge Sampaio derrubava o Governo. Aproveitava umas “novelas” em torno de alguns ministros de Santana Lopes para abrir caminho a um “renovado” PS depois da fuga de Guterres. Em 4 Fev 2005, cerca de 15 dias antes das eleições, José Sócrates e Santana Lopes tinham um frente-a-frente, e Sócrates foi peremptório:

Esta campanha tem de ser centrada nos problemas dos portugueses e de Portugal [...] E deve responder a duas questões fundamentais. Uma, um juízo sobre os últimos 3 anos. Como é que chegamos a este ponto? Quais foram as políticas que motivaram a situação do país? [...] No meu ponto de vista. a escolha nestas eleições, a opção que está de cima da mesa, é esta: escolher entre a continuidade e a mudança”

Eu acho que o país tem de mudar fundamentalmente porque as políticas que foram dirigidas pelo Governo, nos últimos 3 anos, conduziram a maus resultados. Maus resultados na economia, no emprego, na condição de vida dos portugueses


Crise: Não tenhamos memória curta ou selectiva

24/03/2011

A incoerência, a desfaçatez, a hipocrisia, a desonestidade intelectual e a demagogia dos actuais dirigentes do PS é atroz. Depois de 15 anos de governação socialista a culpa do estado a que isto chegou não é deles. É da oposição e dos “factores externos”.

Nos próximos tempos ouvir-se-á que os juros da dívida pública estão a subir devido à irresponsabilidade do PSD. Que a vinda do FMI e do FEEF (como se fosse sacrilégio) é culpa do PSD. Que o aumento dos combustíveis tem de ser imputado a PPC.

A partir de agora, do preciso momento em que José Sócrates se demitiu, qualquer parâmetro que piore a situação do país e da população, deixou automáticamente de ser consequência da “crise internacional” e dos “ataques dos mercados” para ser culpa do PSD.

Relembro que no verão de 2010 os juros da dívida pública estavam nos 5% e dizia-se que o OE2011 teria de ser aprovado para “acalmar os mercados”. O PSD viabilizou o OE2011 e no dia seguinte os juros atingiram o máximo histórico de 6,5%.

Gorado o argumento do OE2011, o problema passou a ser a falta de interessados em comprar a Dívida Pública. De repente apareceram Venezuela e a China como potenciais interessados, e os juros subiram para perto dos 7%.

Daí para cá tem sido uma escalada que só tem comparação com o inédito feito do alpinista João Garcia que subiu ao cume do Everest. Tal como os juros, os combustíveis, os impostos e o corte nos benefícios fiscais também têm sofrido uma subida vertiginosa.

Isto acontece essencialmente por duas razões: o défice excessivo das contas públicas, e a elevada dívida pública. Obviamente que nas “contas” finais também entram variáveis como a falta de produtividade e competitividade da economia.

Quem foram os responsáveis pelo esbanjamento dos dinheiros públicos em estádios, auto-estradas, pontes, parcerias público-privadas, empresas públicas e consultorias que desaguaram num défice excessivo e na elevada dívida pública?

Há muita gente que tem memória curta, e outros têm memória selectiva, mas há que relembrar que esta foi a realidade dos 15 anos, e neste período a governação foi exclusivamente da responsabilidade do PS de Guterres e de Sócrates.


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