Novas Oportunidades: “uma trafulhice de A a Z”

Aproveito o facto de ter voltado à baila o assunto das Novas Oportunidades para transcrever parte de dois posts que publiquei em 9 Dez 2009 e 13 Dez 2010.

[…] fui ver os conteúdos desse maravilhoso programa socrático que dá equivalência a 9º e 12º anos. Dei uma vista de olhos aos programas dos módulos de Matemática para a VidaTecnologias informação comunicaçãoCidadania e empregabilidadeLinguagem e comunicação. Concluí o seguinte…

Andei eu a marrar na Matemática… fracções, integrais, derivadas, etc… e agora nas Novas Oportunidades aprende-se (entre outros assuntos) a Ler e interpretar tabelas, por exemplo: de relação peso/idade, de peso/tamanho de pronto-a-vestir.

Andei eu, num curso de Engª Electrotécnica (para ser consultor em TI)… electrónica, telecomunicações, sistemas de informação… e nas Novas Oportunidades aprende-se (entre outros assuntos) Introduz/altera contactos telefónicos na agenda de um telemóvel

Andei eu a estudar português e a ler tanto para me educar e cultivar…. e nas Novas Oportunidades aprende-se (entre outros assuntos) a Fazer corresponder mudanças de assunto a mudanças de parágrafo

Andaram os meus pais a educar-me para eu saber viver em sociedade… e nas Novas Oportunidades aprende-se (entre outros assuntos) a Ouvir os outros participantes num grupo

Estou elucidado quanto ao valor dos cursos das Novas Oportunidades. Não há dúvida nenhuma que era uma boa oportunidade para dar mais competências a pessoas que estavam desempregadas. Aproveitar para lhes dar uma ocupação, e ao mesmo tempo ajudá-las a crescer e encontrar facilmente mais e melhores empregos. Mas tudo não passa de, como diz Medina Carreira, “uma trafulhice de A a Z”.

[…] quero perguntar o seguinte. No programa das Novas Oportunidades está incluído o cálculo de probabilidades, a estatística, as funções exponenciais e logarítmicas, o cálculo diferencial, a trigonometria ou os números complexos?

É que tudo isto se estuda (programa oficial de matemática) no 12º ano. Ora se os formandos das Novas Oportunidades, não sabem o que é um seno, um co-seno, uma tangente, um logarítmo, um número complexo, uma derivada […] então vão-me desculpar mas não deveriam ter qualquer diploma que lhes concedesse o 12º ano.

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14 Responses to Novas Oportunidades: “uma trafulhice de A a Z”

  1. José António Salcedo diz:

    Pois é.

  2. Nuno Guimarães diz:

    Gostaria de pegar numa amostra de formandos das Novas Oportunidades e submete-los a um exame do 12ºano, ou talvez do 9ºano. Não é necessário um adivinho para prever o resultado.

    • Luis Melo diz:

      Ora, meu caro Nuno, é isso mesmo. O resultado está à vista… e seria desastroso. Mas ainda assim há quem queira entrar na Universidade depois de ter tirado o 12º ano nas Novas Oportunidades.

  3. Teresa Varela diz:

    Ando eu a fazer uma tese de mestrado acerca das Novas Oportunidades, a gastar as minhas pestanas a investigar, entrevistar, observar sessões de júri, etc., para chegar agora à brilhante conclusão de que estive a perder o meu tempo.
    No entanto, gostaria de informar que, qualquer pessoa que tenha obrido equivalência ao 12º ano através da INO, só pode entrar para qualquer curso universitário se:
    1. Realizar com sucesso as provas de acesso ao ensino superior
    ou
    2. For aceite a sua candidatura, maiores de 23, a qual compreende um exame na faculdade a que concorre e, posteriormente, uma entrevista.
    Aproveito para recordar que o RVCC se iniciou em 2000 e não com a Iniciativa Novas Oportunidades, a qual é tão só uma marca, objecto de grande campanha publicitária, e que cobre as várias vertentes da educação e formação de jovens e adultos,tais como, os cursos Tecnológicos, Cursos EFA, (informação disponível no site da ANQ e Novas Oportunidades).

    O Sistema Nacional RVCC nasceu na sequência da V Conferência da UNESCO sobre Educação de Adultos (Hamburgo – 07/1997), da qual resultou a Declaração de Hamburgo, onde se define que “O desenvolvimento da educação e formação ao longo da vida, considerada como «condição para a plena participação na sociedade», assenta num conceito de educação de adultos definido como o conjunto de processos de aprendizagem, formais ou não formais, através dos quais os adultos desenvolvem as suas capacidades, enriquecem os seus conhecimentos, aperfeiçoam qualificações técnicas e profissionais e se orientam para satisfazer simultaneamente as suas próprias necessidades e as das suas sociedades”
    Neste contexto, foi constituído o Grupo de Missão para o Desenvolvimento da Educação e Formação de Adultos (1998), o qual iniciou um processo que tem envolvido diversas entidades e passado por diversas transformações. Assim, dos iniciais seis centros RVCC em 2000, passámos, em 2010, para 454, designados, desde 2005, como CNO – Centros Novas Oportunidades.
    Por mais que estejamos insatisfeitos com o estado deplorável do nosso país e a actuação, que prefiro não adjectivar, dos nossos políticos, julgo que só quando conhecemos profundamente aquilo de que estamos a falar, devemos emitir opiniões tão drásticas e contundentes. Aliás, se consultar os últimos dados sobre a literacia dos portugueses, talvez chegue a conclusões bastante diferentes, não esquecendo que o mesmo teste foi aplicado a todos os países da UE que quiseram participar no estudo.
    Convido-o a assistir a uma Sessão de Júri, em qualquer CNO, pois é uma sessão pública, e dizer-me depois quais as conclusões a que chegou.
    Destruir é sempre fácil e rápido. Construir é um processo moroso, requer paciência, esforço, empenho, muitos erros, mas vale sempre a pena.

    • Luis Melo diz:

      Cara Teresa, agradeço imenso o esclarecimento histórico-cronológico da “coisa”. Quero apenas dizer-lhe que o facto de está a “estudar” a “coisa” não lhe dá nenhum tipo de cátedra. Eu, estou a acompanhar uma pessoa de 60 anos que já tirou o 9º ano nas NO e está agora a tirar o 12º, e sei bem os programas, os trabalhos, as avaliações que tem. Não é teoria, é prática! Por isso também sei do que estou a falar.

  4. Miguel Martins diz:

    A demagogia é um coisa tão engraçada! Aquilo que refere como equivalência ao 9º e ao 12º anos, efectivamente é de equivalência ao 4º ano.
    A escola primária onde andou devia ser um espectáculo, consigo e com os putos todos a saber calcular fracções, integrais e derivadas! Isso sim é um ensino de qualidade!
    Antes de mandar bitaites, informe-se!

    • Luis Melo diz:

      Caro Miguel, o seu comentário é típico de tuga numa conversa de café. Chega aqui, manda umas bojardas, e pronto. Nada de factos, argumentos… só “bocas”. Não merece por isso que perca tempo consigo.

  5. CarlosAlmeidaSantos diz:

    Depois de ler o artigo chego à conclusão de que há pouco conhecimento real sobre o assunto. Como sempre, neste nosso ‘cantinho à beira mar plantado’, os comentários são sempre feitos de teoria barata, muito conhecimento de ouvido e nada de saber feito de experiência real e de campo.

    Por isso mesmo, eu, que desde o princípio julgo ter compreendido o alcance da medida e a tenho vindo a promover em diversas situações empresariais em que tenho estado envolvido, não posso deixar de também dizer algo sobre o assunto.

    Antes de mais, tenho que concordar com o Luis e com a crítica que avança. Compreendo o seu ponto de vista, a fundamentação está certa. Mas, com uma reserva.

    A de eu considerar que o problema está mais ligado com o que pensa e o que afirma o, ainda, nosso PM José Sócrates, que utiliza as agora chamadas Novas Oportunidades mais para as estatísticas e para a sua ignóbil campanha partidária do que para defender o valor, qualidade ou objectivo meritório das RVCC.

    Sendo que, estas sim, são as verdadeiras. Tudo o resto é só propaganda pouco preocupada com os beneficiários para quem ela se dirige e que deviam merecer o respeito de querer ver reconhecidas as suas capacidades e competências.

    Tudo, porque José Sócrates e seus apaniguados confundem certificação de competências pessoais e profissionais, feitas de experiência adquirida ao longo de uma vida de trabalho exigente e competente, com qualificação profissional ou educacional feita de uma carreira lectiva.

    Logo, quando se fala de:

    “…desenvolvimento da educação e formação ao longo da vida, considerada como condição para a plena participação na sociedade, assente num conceito de educação de adultos definido como o conjunto de processos de aprendizagem, formais ou não formais, através dos quais os adultos desenvolvem as suas capacidades, enriquecem os seus conhecimentos, aperfeiçoam qualificações técnicas e profissionais e se orientam para satisfazer simultaneamente as suas próprias necessidades e as das suas sociedades…”

    Não se está a falar de qualquer qualificação curricular que possa vir a subverter todas as regras e exigências de um percurso académico ascendente.

    Estaremos, sim, a falar de criar condições para todos aqueles que até agora nunca tiveram oportunidade para ultrapassar as suas limitações o poderem fazer se o quiserem.

    Ou seja, de ver reconhecidas as suas capacidades perante a sociedade, alimentada a sua motivação pessoal e melhorada a sua auto-estima, assim como poder passar a ter a oportunidade de reentrar na carreira académica.

    Mas, nunca, ultrapassando ou sequer beneficiando de benesses de excepção, sem nenhuma sustentação que não seja a da baixa política, feita de uma capacidade imaginativa doentia e do primado do facilitismo irresponsável.

    Por isso, numa só frase – Certificação, sim. Qualificação, não!

    • Luis Melo diz:

      Completamente de acordo. As NO deviam servir para uma pessoa “ver reconhecidas as suas capacidades perante a sociedade, alimentada a sua motivação pessoal e melhorada a sua auto-estima”. Ao contrário, estão a servir para mascarar estatísticas do desemprego e, como não poderia deixar de ser, o tuga chico-esperto melhorar o seu CV sem ter conhecimentos adquiridos.

  6. Luis Melo diz:

    Sugiro a todos a leitura deste post

  7. Luís Lima diz:

    Não podia estar mais de acordo com as considerações aqui tecidas sobre as Novas Oportunidades. Também eu sei como as coisas funcionam. Uma familiar muito próxima resolveu obter equivalência ao 9º ano através do programa RVCC e, apesar de ter concluído, só faz referências negativas ao programa. “É uma chachada, não se ensina absolutamente nada, não tem interesse nenhum, e por isso é completamente desmotivante”, são apenas alguns dos mimos com que presenteia a iniciativa. E eu sei porque acompanhei de muito perto a evolução da construção do currículum vitae alargado (que, na prática, é o que é o RVCC) e só pensava no enorme vazio que representa o programa, e que é um insulto a quem passou anos na escola a aprender. Um outro familiar muito próximo pensou em fazer a equivalência ao 12º ano e, após duas “aulas”, desistiu por considerar ridículo que para tal bastaria fazer ao longo de 2-3 meses um CV alargado, onde não iria adquirir nenhum conhecimento e onde a exigência roça o grau 0.


    Por aqui se vê que um Programa que tinha tudo para ser de facto um factor decisivo na qualificação de milhares e milhares de pessoas foi instrumentalizado por um Governo que governa para a estatística e com o facilitismo que todos lhe reconhecem, incluindo os próprios alunos (algo nunca visto!).


    Num pequeno aparte, e no âmbito do facilitismo, foi hoje notícia a polémica sobre o exame do 9º ano de Físico-Química. A primeira questão tinha uma introdução onde se enumeravam os planetas que compõem actualmente o sistema solar (indicavam o Mercúrio, Vénus, Terra,… até Neptuno, dado que Plutão tinha sido “desclassificado” como planeta), para depois perguntar quantos eram os planetas que o compunham!!! Realmente, é de uma dificuldade contar até 8! Se isto não é facilitismo, é o quê?

  8. CarlosAlmeidaSantos diz:

    Não sou tão agressivo nem tão negativo na apreciação que faço ao RVCC.

    Como disse no meu comentário, este programa até tem as suas virtualidades. Não nos esqueçamos que conceitos como o da formação contínua ao longo da vida activa e o do papel que cada um deve ter ao participar no dia à dia da sua comunidade, devem ser fundamentais para o enriquecimento do bem estar e a melhoria da sua qualidade de vida.

    O programa RVCC que, como a própria sigla muito bem indica, se trata de um – Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências -, deve ser visto como um principio e não como um fim em si mesmo.

    Agora, o problema está na evolução e no entendimento que o Governo e o nosso inefável PM lhe vieram dar quando o mudaram para Programa Novas Oportunidades. Entendido como qualificação lectiva e trampolim para o facilitismo.

    Parafraseando o que o prémio nobel Paul Krugman, hoje mesmo diz num artigo publicado no jornal I: “… tudo se reduz a pura fantasia e falta de bom senso…”

  9. Teresa Varela diz:

    Caro Luís,
    Não tem que me agradecer os esclarecimentos.
    De facto, o estar a fazer uma tese sobre o assunto não me dá nenhuma cátedra. Contudo, parece-me que aqueles que conhecem apenas um caso, em particular, de alguém com 60 ou 70 anos, com o qual, como é evidente, os avaliadores serão sempre menos exigentes, ainda menos a tem. Como deve calcular o meu estudo engloba um número “ligeiramente” maior de pessoas.
    O RVCC é, conforme o próprio nome indica, o reconhecimento, validação e certificação de competências, as quais devem ter sido, maioritariamente, adquiridas ao longo da vida, em contextos de educação formal ou informal, de trabalho e outras.
    O sistema RVCC com as suas características muito específicas, embora só exista no nosso país, encontra-se em consonância com as directrizes da União Europeia e da UNESCO e com os outros sistemas de educação e formação de adultos, existentes nos vários países europeus, e noutros, dentre os quais se destaca o Japão, país pioneiro na reformulação dos sistema de educação.
    Quanto a mim, o RVCC é um sistema completamente válido, se todos os envolvidos seguirem os critérios e normas do processo.
    No entanto, se estivermos a falar só e apenas da “política” da política educativa subjacente às Novas Oportunidades, então estamos a falar de outra coisa completamente diferente e que, infelizmente, não serve só para aplicar ao RVCC, mas antes à grande maioria das medidas políticas e da forma de gerir este país.
    Se eu acho que no RVCC se aldraba, claro que sim, se obrigam os CNO a apresentar números, muitos deles vão apresentá-los, nem que ressuscitem os mortos.
    Mas, pode dizer-se o mesmo acerca dos subsídios à agricultura, os dinheiros que vieram para contribuir para a reflorestação das zonas atingidas pelos incêndios de 2003, e que nunca chegaram àqueles que, não só foram vítimas desses incêndios, como perderam o dinheiro que investiram na realização de projectos de reflorestação,que obrigatoriamente tinham que ser entregues ao Ministério da Agricultura (Sei bem do que estou a falar). Enquanto outros continuam a receber subsídios para plantar coisas que já não plantam há vários anos.
    Já para não falar da utilização abusiva que o Estado tem feito de muitos outros subsídios provenientes da UE, transformado-os em fundos estruturais, certamente para pagar chaufeurs, veículos topo de gama e outras mordomias, ou ainda, nos institutos que proliferam pelo país, que ninguém sabe para que servem, sem produzirem nada de útil, apenas servindo para dar chorudos ordenados aos concunhados, às primas e às amigas/os.
    A honestidade e dignidade não parecem ser, hoje em dia, valores muito importantes, particularmente quando nos referimos ao actual governo e ao engenheiro “O de Domingo” que o representa e que,pasme-se, segundo as sondagens, vai continuar a representar.
    Sempre houve aldrabões e aldrabices. Portugal é um país de brandos costumes, de gente, maioritariamente, boa, empreendedora e com sentido de humor (Ex. Descobrimos meio-mundo; abolimos a escravatura e a pena de morte antes de quase todos os outros; temos cientistas e técnicos espectaculares; para onde emigramos (mesmo os dos anos 60 que eram quase analfabetos)distinguimo-nos sempre pela positiva. Contudo temos tido sempre os chicos espertos e os aldrabões que, nos últimos tempos, se têm vindo a reproduzir como coelhos e com novas características de falta de vergonha, deleitando-se com a sua esperteza e a impunidade reinante no país.
    Tudo isto nada tem a ver com a validade ou não do RVCC, e já agora aproveito para informar que o PRA – Portefólio Reflexivo de Aprendizagem, nada tem a ver com um Curriculum Vitae, como alguém alvitrou.
    Não sou demagógica, nem sonhadora, nem tenho idade, nem paciência para isso, mas, como realista que sou, não aceito de forma alguma que, sem conhecimento de causa, as pessoas façam afirmações destrutivas sobre processos que não conhecem.
    O mundo vive em constante mudança, a qual se acelerou particularmente a partir do final do século XIX. Os homens resistem à mudança, mas ela dar-se-à inevitavelmente. O RVCC tem erros (sem falar das aldrabices), falhas ou pode ser melhorado? Concordo, mas, mesmo nesta fase, se o processo for fiel aos critérios estabelecidos, só será certificado quem efectivamente mostrar que tem as competências para tal.
    Volto a convidá-lo a assistir a uma Sessão de Júri e a ler um PRA, de alguém que não tenha 60 anos.
    Atentamente,
    Teresa Varela

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