O preço a pagar por ser filho de político

Nova indignação esta semana, pelo facto de Luís Durão Barroso – filho do ex-Primeiro Ministro e Presidente da Comissão Europeia – ter sido contratado pelo Banco de Portugal (BdP). Muitos vieram de imediato bradar nepotismo. Outros, pelo contrário, vieram tentar defender e justificar.

Eu sou dos que critico esta contratação. Mas não pelos mesmos motivos que a maioria dos críticos apresenta. Não faço parte do grupo do 8 (que diz que esta contratação é perfeitamente normal) nem do grupo do 80 (que diz que esta contratação é uma descarada e vergonhosa cunha do papá).

Para mim é um problema de princípio. Ele está na falta de ética, moral e vergonha. Ou seja, no cumprimento de regras de conduta e dos princípios da honestidade, decência e integridade. Na falta de pudor e de receio de desonra.

Durão Barroso, o seu filho Luís, e o Governador do BdP, deveriam saber melhor do que ninguém que a contratação iria dar polémica, descredibilizar as suas imagens e colocá-los numa situação profissional e pessoal difíceis.

Então porque avançaram com isto? Ainda por cima numa altura em que: a) o BdP está sobre máxima pressão por causa do caso BES e b) se fala que Durão Barroso poderá ser candidato a Presidente da República. Não parece de todo inteligente.

Os contornos do caso ficam ainda piores quando se sabe que o Luís foi contratado sem concurso, e que o BdP esconde o seu salário. A estes tiros no pé soma-se a tentativa de justificação: “a regra no BdP é contratar por concurso salvo situações de comprovada e reconhecida competência profissional“.

Mauro Xavier vem no Facebook dizer “Gostava de saber quantos doutorados há da LSE (..) com menos de 35 anos (..) inveja a mais e qualificações a menos em Portugal”. O Mauro parece um daqueles provincianos que se deslumbra com um título em inglês. Mauro, há centenas ou milhares deles. E um canudo da LSE não dá, por si só, “reconhecida competência profissional“.

Mais, a verdade é que ao verificar o CV do Luís, o seu percurso profissional contém: a) 2 estágios em sociedades de advogados, b) 2 docências universitárias e c) 2 lugares de investigador em universidades. Diga-se que, para quem tem 31 anos, não me parece que o percurso profissional seja assim tão brilhante e proeminente.

No entanto consigo entender o que disse o Nuno Ferreira no Twitter. Ele acaba por ter a sua razão. Em Portugal “És filho de um político, figura pública ou és rico? (…) O teu mérito nunca será reconhecido. E qualquer emprego será sempre cunha“.

À partida, e se queremos ser verdadeiramente justos e democratas, ninguém deveria ter um handicap por ser pobre e desconhecido ou rico e filho de um poderoso. Mas o problema é que este mundo em que vivemos não é perfeito. O verdadeiro equilíbrio não existe.

Pelo que, se ser pobre e desconhecido tem as suas desvantagens em muitas circunstâncias da vida, ser rico ou famoso também tem de as ter. Não podemos achar que é aceitável uns terem todas as desvantagens e outros terem todas as vantagens, e mais algumas.

Ser filho de um político, em Portugal, tráz as suas responsabilidades e as suas desvantagens. Uma delas, respeitando os princípios e os valores da ética e da moral, seria o Luís não ir trabalhar para o BdP e arranjar emprego noutro sítio qualquer. Afinal de contas, se ele é assim tão bom não faltariam empregos à sua espera noutras empresas.

Mas não seria isso injusto? Privá-lo de trabalhar no BdP só por ser filho de um político? Mesmo que ele tivesse sido contratado por concurso? Sem dúvida. Uma desvantagem. É verdade. Mas seria o preço a pagar por ser filho de quem é. Tal como o filho do Zé da Esquina paga todos os dias o preço por ser filho do merceeiro.


Fim dos anos 80. O meu avô era Vice-Primeiro-Ministro. Vivia a minha adolescência em Santo Tirso. Queria fazer o que os meus amigos faziam. Tocar às campaínhas e fugir, roubar rebuçados no supermercado, andar à pancada, atirar balões de água da janela, faltar às aulas, etc.

Todos se safavam… menos eu. No próprio dia a minha mãe já sabia (toda a gente sabia quem eu era). Castigava-me e dizia-me que o avô era uma pessoa conhecida e respeitada. Que tinha um cargo de muita responsabilidade. E que por isso eu não podia fazer certas coisas que os outros podiam, e tinha de dar o exemplo.

Era, naquela altura, uma desvantagem ser neto de político? Era. Mas era o preço a pagar. Há certas coisas que muitos podem fazer, e que os filhos dos políticos (ou outros famosos e poderosos) não podem. Nem que seja por uma questão de princípio!

… como por exemplo, fumar um charro… o que acaba, essa sim, na minha opinião, por até ser uma vantagem🙂

3 respostas a O preço a pagar por ser filho de político

  1. Miguel Cizeron diz:

    Curiosamente estive a discutir isto com o meu pai, que fez uma observação interessante:
    “Isto, no meu país era impossível apenas por uma simples razão: ia dar polémica. E dando polémica, no meu país, as pessoas mesmo sem culpa demitem-se logo. É uma questão de honra. Aqui neste país a honra parece não existir na maioria dos políticos.”

  2. Transparência diz:

    Concordo! Não existem almoços grátis. Para além do preço a pagar, temos a fatura, que chega mais tarde ou mais cedo. Ricardo Rossi e José Pedro Miranda que o digam, já que estenderam a passadeira vermelha ao atual presidente da câmara nas últimas eleições autárquicas, e este retribuiu com o apoio para o FC Tirsense. Agora é a vez de Carlos Valente cobrar a fatura. O ex-presidente da junta de Vila das Aves volta a candidatar-se aos Bombeiros das Aves. Desta vez, conta com o apoio do Dr. Couto, que tem mexido cordelinhos para garantir que a candidatura de Carlos Valente consiga vincar, o que não aconteceu na situação anterior. É por isso que as pessoas cada vez confiam menos nos políticos.

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