Mário Soares pintado de fresco

Estou tão comovido com a morte de Mário Soares, como fiquei com a morte de outros políticos da nossa praça, que morreram nos últimos anos.

Confesso que não muito. Pela simples razão de que não acho, absolutamente, e de todo, que Soares tenha sido o herói que querem pintar agora de fresco.

Teve um papel importante, como muitos outros (uns mais e outros menos notáveis) na história recente de Portugal. Tomou posições e decisões cruciais para o futuro dos portugueses e do país.

Umas (algumas) boas, outras (muitas) más. Nem sempre (quase nunca) as boas foram pelo interesse de Portugal, mas pelo seu próprio. Por exemplo, creio que a decisão de evitar que o PCP tomasse controlo foi sobretudo porque Soares queria o protagonismo para si mesmo e para o PS.

Da mesma forma, as más (quase sempre) foram tomadas pela cegueira partidária, pela teimosia egoísta, e pelo interesse próprio e corporativo. E dessas há muitos exemplos, que me escuso repetir.

Para além disso, há os episódios do filho e os diamantes. De Macau e a Emaudio. Da Fundação e a origem do seu financiamento. Que não se podem branquear. E que só passaram incólumes dada a teia de influência e corrupção na política, comunicação “dita” social, e justiça.

Como Ministro e Primeiro-Ministro foi medíocre. Não se conhece nada relevante dos seus governos (a não ser a 2a vinda do FMI). Quem lidou e privou com ele sabe que nunca dominou qualquer dossier ou assunto, nem tinha conhecimento técnico de seja o que for. E, à porta fechada, até se gabava disso.

Como Presidente continuou as lutas partidárias e de poder. Não só focado no ressentimento ao PSD (o grande obstáculo ao “seu” PS ser o único grande partido português) mas também no ódio pessoal a Cavaco Silva (fazendo de tudo para tentar impedir os seus governos de fazerem fosse o que fosse).

Para além disso, o seu consulado como Presidente serviu para estender e aumentar os seus tentáculos, e criar um dos maiores polvos políticos de sempre. Com a conivência não só de camaradas do PS mas também gente de outros partidos, da comunicação “dita” social e da justiça.

A sua vida pública e tempo de serviço (ou melhor, em que ocupou cargos públicos) sempre foi pautada pelo egoísmo, lutas pessoais, políticas e de poder. Raramente se guiou por um sentido de missão, com vista a reformar e desenvolver o país, e dar algo melhor aos portugueses.

Recentemente fez mesmo coisas ridículas, como a candidatura presidencial contra Manuel Alegre e Cavaco Silva. A defesa de José Sócrates e Isaltino Morais. E outros episódios bem conhecidos sobre os quais escrevi neste blogue.

Daí que eu ache interessante, e até muito revelador, que a grande maioria do país – da sociedade civil à comunicação “dita” social; da classe política ao povo português – ache que Soares foi figura maior e proeminente de Portugal.

Agora, não interessa nada… avante para o Panteão. O primeiro a propôr isso no parlamento fica imortalizado.

P.S. (1) – Há 2 anos escrevi um post sobre Mário Soares, que recomento leitura, no seguimento deste: Mário Soares – Até ao fim da IIIª República

P.S. (2) – poucas horas (minutos até) após o anúncio da morte de Mário Soares, vários órgãos de comunicação “dita” social publicavam vários artigos de fundo acerca da sua vida (pessoal e política). É de muito mau gosto, eu acho, ter tudo isto preparado, à espera (alguns, se calhar, mesmo a torcer) do facto consumado, para poderem clicar “publicar”.

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