Cacique. Primeira razão pela qual Portugal está moribundo

21/07/2017

Alguns ainda se deixarão surpreender por notícias como a que o Observador (e bem) publicou hoje: Carrinhas, listas e cacicagem. Todos os detalhes da guerra pelo poder no PSD/Lisboa

Outros, já não só, não se deixam surpreender como admitem o cacique como práctica corrente e, ainda pior, como prática aceitável e incontornável.

Já muito escrevi neste blog sobre caciques. E sobre aqueles que o praticam. Nomeadamente no PSD Santo Tirso – que é o exemplo que conheço mais de perto.

Um exemplo foi o de Abril de 2014, onde num artigo para um jornal local escrevi que o PSD Santo Tirso teria sido “atacado por várias doenças” nomeadamente um “fatal Cancro do Cacique“.

Esta é, na minha opinião, a primeira razão pela qual Portugal está moribundo, e a caminho do abismo. Que acabará, mais tarde ou mais cedo, em forma de ditadura (comunista ou fascista).

E é, porque o estado do país se deve em muito à má estratégia, às más políticas, às más decisões, tomadas pelas pessoas que estão à frente do governo de Portugal.

Não só as que estão no Governo da República mas também aquelas que estão nos lugares de liderança de outros orgãos (políticos, empresariais, judiciais), nomeados pelos primeiros.

Esses que na esmagadora maioria dos casos, emergiram dos partidos políticos, nos quais a única forma de chegar às lideranças e lugares de decisão, parece ser o tal cacique.

Da maneira como os partidos estão organizados, são os tais que promovem e controlam os caciques, que decidem quem será o candidato à Junta, à Câmara, à Assembleia da República.

E serão depois os mesmos a decidir quem será o nomeado para a Direcção Geral, o Governos Civil, a CCDR, e muitas outras instituições e orgãos que governam o país.

A verdade é que não há cacique sem “carneiros”. Se quem promove e controla o cacique tem falta de carácter, o que dizer daqueles que se deixam levar em carrinhas para votar.

Esses são, para mim, tão maus ou piores. É preciso ser-se muito invertebrado para deixar que outros pensem pela sua própria cabeça. Para se vender por “um prato de lentilhas”.

Da mesma forma, aqueles que são coniventes com o cacique, ou que se aproveitam dele sem “sujarem” as mãos, são também gente muito pouco recomendável.

É também por isso que sempre defendi, que a responsabilidade do estado do país não é exclusiva dos políticos. Mas de todos os portugueses. Nomeadamente dos acima mencionados.

Mas também daqueles que se deixam vencer por estas práticas e estas pessoas. Aqueles que, ao saber do cacique, desistem de lutar e deixam a coisa acontecer. Também esses são culpados.

É por isso que, apesar de me doer muito, nunca deixei de me fazer ouvir, e de agir. Não só a nível nacional, mas acima de tudo na minha localidade, em Santo Tirso.

Candidatei-me várias vezes contra os caciques. Perdi sempre. Testemunhei os autocarros. Dei de caras com muitos “carneiros”. Provei a desfaçatez e falta de vergonha de quem promove e controla os caciques.

Tenho muita pena que o meu partido, o de Francisco Sá Carneiro, se tenha tornado nisto. E é por isso que não apoio candidatos que, tenho a certeza, sairam deste lamaçal.


Habemus candidatam PSD em Santo Tirso

19/01/2017

Não demorou muito para se confirmar o que disse no último post. Parece até que eu até já ia atrasado. Por que pelo visto (e segundo um militante/simpatizante do PSD que me contactou por email), a Comissão Política Concelhia do PSD Santo Tirso aprovou, na passada Terça-feira, dia 10 Janeiro, o nome de Andreia Neto como candidata à Presidência da CM Santo Tirso.

Tal como tinha sido feito há 4 anos pelos mesmos protagonistas, não houve discussão nem aprovação de um perfil, com os militantes. O nome de Anderia Neto foi apresentado como um facto consumado, e a votação no plenário da semana passada foi à boa maneira comunista: de braço no ar. Garantindo assim que seria aprovado.

Tudo isto foi feito num plenário para o qual, mais uma vez, não foram convocados todos os militantes. Só provavelmente aqueles que interessam, ou que em votação de braço no ar não teriam coragem para votar contra ou abster-se. Claro que eles dirão que veio publicado no Povo Livre, como dizem os estatutos. Mas isso, sabe-se bem, serão déspotas a esconderem-se atrás de formalidades.

Só me resta desejar sorte à Andreia Neto. Vai precisar dela. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. E esta candidatura acaba de nascer torta, tal como a de Alírio (com o resultado conhecido).


PSD Santo Tirso: À espera da auto-nomeação de Andreia?

16/01/2017

Já lá vai o tempo em que “pelo facto de estar em Lisboa durante a semana” Andreia Neto não poderia “assegurar a condução dos destinos do PSD de Santo Tirso”. Foi em 2012 quando, em mais uma troca de cadeiras, Alírio Canceles entendeu “voltar a assumir responsabilidades na liderança do PSD de Santo Tirso“. Sim, porque no PSD de Santo Tirso não há eleições, os lugares assumem-se.

Alírio auto-nomeou-se candidato à presidência da CM Santo Tirso. Com a conivência de Andreia fez o que bem entendeu das Autárquicas 2013. Ostracizou militantes como Carlos Valente. Perdeu as eleições com o pior resultado de sempre. Teve o descaramento de culpar outros (ex. Passos Coelho, Carlos Valente e eu próprio). E ainda teve tempo de fazer tiro ao Zé Pedro Miranda.

Mas a memória, em política especialmente, é curta. Bem como as amizades. Depois de perdidas as Autárquicas 2013, Andreia Neto voltou a assumir a presidência do PSD de Santo Tirso. Tal como vaticinei aqui neste blogue. E começou desde logo a preparar o caminho. Primeiro passo, atirar Alírio pela borda fora. Algo fácil dado que ele sempre foi apenas uma marioneta sem peso político ou eleitoral algum.

Segundo passo, atrair militantes importantes ou de facção. Chamá-los à colaboração ou assunção de cargos. Como exemplo, os ex-presidentes do PSD Gonçalves Afonso, Paulo Ferreira ou João Abreu, e da JSD Pedro Almeida, Hugo Soutinho ou Rui Baptista. Todos eles, numa altura ou noutra, críticos de Andreia. Mas como disse, em política a memória é curta e as inimizades também.

Terceiro passo, garantir apoio de todos os outros militantes com peso, dado que infelizmente não há lugares para todos na estrutura do PSD. Vai daí uma cerimónia de entrega de prémios a ex-presidentes e presidentes das Juntas de Freguesia. Sedentos da importância que tiveram ou querem continuar a ter, mesmo aqueles que um dia foram ostracizados, juntaram-se a Andreia.

O passo seguinte, o quarto, tentar levar o CDS de Santo Tirso a aproximar-se. Tarefa que não se previa difícil. Desde há muitos anos que o CDS não tem expressão nem influência no concelho, pelo que uma hipótese de coligação seria bem vista. Ainda para mais quando Andreia podia invocar a coligação PSD/CDS vigente a nível nacional. Estavamos em Novembro de 2015 e o CDS (liderado por Ricardo Rossi) caiu que nem um patinho.

Entrados em 2016 era tempo de firmar mais um passo, e começar a aproximação aos Tirsenses. Vai daí a deputada Andreia Neto já não estava “presa” em Lisboa e passava muito mais tempo em Santo Tirso, em variados eventos e visitas. A comunicação dita social também se deixava cair na ladainha e publicava fotos de 1ª página, entrevistas e notícias com Andreia Neto.

Faltava apenas mais um passo. Discretamente puxar dos galões de deputada e exibir certas relações. Vai daí foi um desfile de notáveis. De José Pedro Aguiar Branco, passando por Paulo Rangel, e até Marcelo Rebelo de Sousa (benditas Presidenciais que calharam tão bem), Andreia apareceu ao lado, abraçou e tirou fotos com todos.

Também as “elites” do distrito teriam de ser convencidas, engraxadas e exibidas. Pelo que presidentes de Câmara como Aires Pereira, Bragança Fernandes, Paulo Cunha, Sérgio Humberto também passaram por Santo Tirso, e tiraram fotografias com Andreia. Para isso qualquer evento servia. Até as Jornadas Eurico de Melo, com a conivência da JSD, serviram de palco e plataforma a Andreia.

O último passo (para já) veio há pouco mais de 2 meses. O PSD Santo Tirso lançava o site www.ouvirparadecidir.pt que, disfarçado de auscultador do partido local aos Tirsenses, apenas serviria para dar mais publicidade a Andreia Neto. Daí a enorme foto de Andreia na página principal, que ocupa o ecrã inteiro!

Ora, depois de tudo isto, apenas falta consumar o facto. Ou seja, tal como Alírio Canceles, esperar que Andreia Neto se auto-nomeie candidata à presidência da CM Santo Tirso, e comunique isso aos militantes. Eles que, pelos estatutos, deveriam ser consultados previamente e ter uma palavra a dizer.


Portugal Não Pode Esperar

27/11/2016

Creio que Portugal não pode, de facto, esperar. A acção e políticas do Governo liderado por António Costa são demasiado graves. E o rumo que a chamada “geringonça” leva é extremamente preocupante. Ao leme estão os partidos da extrema esquerda (BE e PCP), que navegam à sua vontade enquanto o “comandante” está mais preocupado com a sua própria imagem. Portugal recua para o séx. XX, de que fala o El País.

A alternativa está, sem dúvida, no PSD. Mas num PSD que se quer mais inconformado. Num PSD que se quer fortalecido. Num PSD que se quer mais fresco. Num PSD onde a discussão política é, sempre, acesa. Num PSD onde cabem todos os pontos de vista. De Pedro Santana Lopes, de Rui Rio, de Paulo Rangel e de muitos outros, mais ou menos notáveis. Num PSD livre de lastro (como Marco António Costa ou Fernando Ruas).

É por isso que vejo com bons olhos movimentos como o que foi fundado e anunciado recentemente, o “Movimento Portugal Não Pode Esperar“. Fundado por um grupo de militantes entre os quais estão alguns que muito estimo, e de quem me senti politicamente próximo por várias vezes. O Pedro Rodrigues, o Miguel Corte-Real ou o Hugo Neto, que conheço, são bons exemplos disso. Desejo-lhe um bom trabalho e muita força.

Força, principalmente contra o status quo e todos aqueles que se sentem incomodados – principalmente os da “cúpula de Lesboa” e da comunicação “dita” social – que tentam desde logo “carimbar” movimentos legítimos, numa tentativa de os descredibilizar (ex: oposição a Passos Coelho… apoio a Rui Moreira).


Carta a Pedro Passos Coelho

15/08/2015

Caro Pedro,

Até teres sido eleito e teres começado a exercer as funções de Primeiro-Ministro nunca tinhas sido uma referência ou sequer um exemplo político para mim. Na verdade isto não aconteceu por teres feito alguma coisa que não me tivesse agradado. Pelo contrário. Não tinhas era feito nada que me tivesse enchido as medidas. Na JSD, como se diz em inglês, you had enormous shoes to fill. Eleito presidente, tinhas de substituir um verdadeiro exemplo de serviço público, capacidade e competência (o Carlos Coelho). Também tiveste o azar (é assim que o considero) de teres presidido à JSD nos piores tempos do Cavaquismo, quando o nosso partido se descaracterizou total e definitivamente, tornando-se num partido de clientelas, negócios e poder (não que isso fosse culpa tua). E desde então a tua carreira política não tinha sido mais do que mediana. O que, para mim, até é um bom sinal. Porque poderá querer dizer que nunca estiveste muito envolvido nas cúpulas que controlam e distribuem clientelas.

Foi por estas e por outras que em 2010 não achei que fosses a melhor escolha para o PSD, numa altura tão difícil e crucial para o país. Aliás, nessa altura, cheguei mesmo a apelar a que não votassem em ti. Mais uma vez, não por ter alguma coisa contra ti, mas pelo facto de teres certas e determinadas companhias a teu lado, a apoiarem-te e, ao que parecia, a aconselharem-te. Falo de gente como Angelo Correia – homem que nunca apreciei e sempre achei que fazia parte daquele PSD que sempre quiz o “poder pelo poder”, e que sempre misturou negócios com política, para benefício próprio.

A verdade é que, uma vez eleito Primeiro-Ministro, surpreendeste-me pela positiva. A minha opinião da tua pessoa deu uma reviravolta de 180°. Passei a respeitar-te como político e como presidente do PSD. Foram várias as vezes em que erraste como governante, é verdade, mas ninguém é perfeito. Foram muitas mais as vezes em que agiste de forma correcta, tal como se exige a um estadista. Deste uma resposta absolutamente incrível a muitas decisões difíceis e às condições em que se encontrava Portugal e, com uma perseverança típica de grandes líderes, conseguiste ultrapassar o período de intervenção (bem como outras habilidades irrevogáveis). Mantiveste, como se exige a um bom Primeiro-Ministro, o bom senso, o equilíbrio e a estabilidade num governo de coligação.

Depois de 4 anos dificílimos para Portugal e para os Portugueses, depois de a oposição ter aproveitado (por vezes injusta e hipócritamente) todas as medidas austeras que o governo foi obrigado a implementar por imposição dos seus credores, depois de tantos altos e baixos no governo e no partido, conseguiste chegar à pre-campanha das Legislativas 2015 numa posição surpreendente e impensável há uns anos atrás: taco-a-taco com o candidato do PS que, segundo muita opinião pública e publicada, tinha estas eleições ganhas mesmo antes de ter sido escolhido pelo seu partido para candidato a Primeiro-Ministro.

O que fizeste foi absolutamente incrível. Por Portugal, pelos portugueses, pelo PSD, por ti. E estás agora com uma enorme probabilidade de vencer as eleições Legislativas 2015, repetindo aquilo que aconteceu no Reino Unido há meses atrás e que surpreendeu o Mundo. Muito bem! Excelente! Parabéns!

Agora imagina o que seria se não tivesses a teu lado o Marco António Costa, o Miguel Relvas, o Pedro Pinto, o Carlos Carreiras, a Assunção Esteves, o Carlos Abreu Amorim, o Virgílio Macedo, e outros que tais. Sem esses, já tinhas as eleições no bolso, e Portugal a certeza de que não voltaria ao Socratismo – porque é disso que se trata se este PS vencer.

Pensa nisso… Um abraço, Luís


António Capucho vs Mário Soares. Descubra as diferenças

06/06/2015

Há mais de uma ano escrevi sobre a polémica à volta da expulsão de António Capucho do PSD. Apesar de defender que o processo foi mal conduzido e provavelmente desnecessário critiquei fortemente o seu comportamento.

Agora sou surpreendido (não muito, para ser franco) com a notícia do Expresso “António Capucho é orador surpresa na abertura da Convenção do PS“.

António Capucho devia ter vergonha. Tudo o que de bom foi e fez no PSD (desde os tempos de Sá Carneiro e da AD) deitado pelo cano abaixo por causa de uma birra.

Não saber sair de cena pelo próprio pé acaba invariavelmente nisto… envergonhar-se a si próprio e perder o capital que tinha acumulado durante uma vida de serviço público.

O mesmo aconteceu com outros, nomeadamente com Mário Soares. A única diferença é que António Capucho tem menos 20 anos, o que torna o caso mais “grave”.


António Capucho e o paralelo com Santo Tirso

28/03/2014

(Artigo publicado na edição de Março 2014 do jornal Notícias de Santo Tirso, e que também pode ser lido aqui)

António Capucho foi um destacadíssimo militante do PSD. A ele se devem muitas das vitórias do partido, que tiveram como consequência o trilhar de um novo rumo para um Portugal saído de décadas de Estado Novo. Alguns dizem mesmo que foi ele o “arquitecto” do sucesso da Aliança Democrática, tendo convencido Francisco Sá Carneiro (com factos, argumentos e números) que a vitória nas eleições de 1979, com maioria absoluta, só sería possível se fizesse um acordo com Diogo Freitas do Amaral (CDS) e Gonçalo Ribeiro Teles (PPM).

Foi Secretário-Geral e Vice-Presidente do PSD em momentos importantes da história do partido e do país. Foi Deputado na AR e um excelente Líder Parlamentar. Passou por 3 Governos e, apesar de 2 deles terem sido de má memória (AD com Pinto Balsemão e Bloco Central com Mário Soares), o seu papel no segundo Governo do PSD com Cavaco Silva foi muito importante. Depois veio uma relevante passagem pelo Parlamento Europeu (como Deputado e Vice-Presidente) e pela Câmara Municipal de Cascais onde deu 3 vitórias ao partido.

Este curriculum político e de serviço público era mais do que suficiente para, chegado aos 65 anos, sair da política pela porta grande como um dos grandes obreiros dos sucessos do PSD e um dos portugueses que mais contribuiram ao longo da sua vida de serviço público para o desenvolvimento de Portugal a todos os níveis: local, regional, nacional, europeu. Capucho acumulou um capital que lhe permitiria ser um importante militante de base do PSD (os verdadeiros donos do partido) e uma grande reserva intelectual do país.

Ao contrário do que alguns dizem, saber identificar a hora certa de sair de cena não é uma arte. Aquele que é sensato, racional e prudente sabe bem quando deve sair. Não porque tenha deixado de ser capaz, mas porque tem a consciência que a rotina atrai o conservadorismo e afasta a inovação. E que isso impede o desenvolvimento. Daí que, aquele que é bem intencionado e altruísta saiba que o correcto é dar o lugar a outros. Não necessariamente mais novos ou mais fortes. Mas com mentalidades novas, livres e vigorosas.

O risco de deixar passar a hora certa de sair de cena é acabar por incorrer nisso de uma forma impulsiva quando a insatisfação ou o desgaste já atingiram um nível tal que comprometem o bom senso. Foi isso que aconteceu a muitos políticos da nossa praça – dos quais Mário Soares é o exemplo mais evidente e, coitado, não tem em casa filhos com noção, que sejam capazes de pedir aos jornalistas que deixem de lhe colocar microfones na frente (já que pedir-lhe para se abster parece impossível). É isso que está a acontecer a António Capucho.

António Capucho tornou-se presunçoso, e porta-se agora como se fosse dono do partido, o único herdeiro de Sá Carneiro. Tal e qual como Mário Soares com o PS e a democracia portuguesa. Ora, o PSD não é dele nem tem de seguir o que ele diz. De qualquer maneira, o PSD sempre foi um partido democrata e pluralista! Capucho tem direito a dizer o que pensa sem ser ostracizado! E o processo da cessação da sua militância está claramente revestido de marginalização, de alguém que tem sido crítico do status quo. É isso que condeno!

Bem sei o que dizem os Estatutos do PSD. Mais, antes de começar a escrever este artigo, pedi esclarecimentos a dois amigos que integram o Conselho de Jurisdição Nacional (CJN), e que por isso tomaram parte na decisão. Portanto estou plenamente consciente de que chegada a queixa ao CJN, este desfecho era quase inevitável. “Não é uma sanção. É uma decorrência directa. O CJN não pode discutir a gradação da pena. Nestes casos os estatutos são claros”. Quase que concordo com o meu caro amigo, mas…

A verdade é que os Estatutos dizem “Cessa a inscrição no Partido dos militantes que se apresentem em qualquer acto eleitoral (…) na qualidade de candidatos , mandatários ou apoiantes de candidatura adversária da candidatura apresentada pelo PPD/PSD”. E se o CJN resolveu não aplicar a “decorrência directa” a militantes que manifestamente foram apoiantes de outras candidaturas (exemplo flagrante: Miguel Veiga apoiou Rui Moreira no Porto) também o poderia ter feito no caso de mandatários ou candidatos.

Muitos dos actuais decisores e dirigentes do PSD fizeram algo que para mim é detestável. Esconderam-se atrás de formalidades para poderem levar a cabo um processo de marginalização de alguém que lhes é incómodo. E esses são os mesmos que, quando lhes dá jeito, ultrapassam pela direita os Estatutos, as Regras e as Leis para se beneficiarem a si próprios. Aliás, os que agora se escudam nos Estatutos terão sido os que possivelmente mais vezes os contornaram no passado. Marcos Antónios à cabeça!

Mas esta discussão sobre a parte “jurídica” da coisa não é o cerne da questão. A verdade é que tudo tem início a montante. Tudo nasce de mais um vergonhoso processo de escolha de uma candidatura autárquica, em que a Comissão Política Nacional e a Comissão Política Distrital de Lisboa do PSD vetaram a candidatura de Marco Almeida à CM de Sintra, para forçarem a imposição do amigalhaço Pedro Pinto (uma das mais medíocres figuras do PSD) como candidato a Presidente daquela Autarquia em que o PSD vence desde 2001.

O dado mais relevante é que a candidatura de Marco Almeida tinha sido desejada e apoiada pelos militantes de base em Sintra, enquanto que a candidatura de Pedro Pinto foi imposta por quem tem o poder de decisão e se julga dono do partido. A consequência foi a vitória oferecida de bandeja ao PS, que apesar de ter um fraco candidato (o vira-casaca Basílio Horta) conseguiu sair vencedor. Ao apoiar Marco Almeida, António Capucho esteve portanto, em boa verdade, ao lado dos militantes de base do PSD e em dissonância com os déspotas.

Tudo isto é fácil de perceber para quem acompanhou de perto o processo de escolha do candidato autárquico do PSD em Santo Tirso. Também cá a opinião dos militantes de base foi desprezada pelos decisores, que naturalmente o fizeram propositadamente porque queriam auto-nomear-se candidatos nas listas autárquicas. Também cá a Comissão Política impôs não só um candidato – manifestamente fraco e indesejado – mas também um coligação absurda com um partido que não tem sequer representação no concelho.

Também cá os dirigentes do PSD se esconderam atrás das formalidades para justificaram as suas escolhas à revelia dos militantes. Também cá esses déspotas acabaram por sair derrotados nas urnas prejudicando o partido e o concelho. Também cá eles se apressaram a apresentar queixas aos Conselhos de Jurisdição para afastar aqueles que não os apoiaram. Também cá foram esses que, quando conveio, contornam os Estatutos (lembrar quando Alírio Canceles recuou para vogal da Comissão Política para contornar a limitação de mandatos, e poder ser presidente aquando das Autárquicas).

O mal é que este gente está tão cheia de si própria que nem sequer consegue discernir. Este tipo de episódios (o ostracizar e afastar de militantes que pensam pela própria cabeça, e de maneira diferente) é pior para o partido, para a democracia, para o país, e até para para eles.


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