As “balizas” da comunicação “dita” social

27/09/2012

A propósito de Rui Rio ter dito que eram necessárias “balizas” para a comunicação social – ou comunicação “dita” social como ele uma vez lhe chamou, e com a qual concordo plenamente – logo vieram uns arautos da liberdade berrar e, obviamente, acenar com o 25 Abril (lá está o trauma) e a liberdade de expressão.

Curiosamente estes são os mesmos que berram também contra os despedimentos e os cortes nos salários/subsídios por, na sua opinião, serem anti-constitucionais. E o que é a Constituição senão uma “baliza”, um limite, uma restrição? As “balizas” já valem neste caso? Ou é só por se tratar do seu umbigo, do seu quintal?

Numa sociedade desenvolvida tem de haver “balizas”, limites, restrições, leis. Senão era uma Anarquia! Não uma Democracia! Eu sou adepto da liberdade mas não a confundo com libertinagem. E seria adepto da existência de poucos limites (apenas os essenciais) desde que houvesse bom senso e respeito pelo próximo.

O problema é que isso não existe. Muito menos na comunicação “dita” social, como tem estado bem à vista nos últimos anos. Que me desculpem os meus amigos jornalistas, aqueles que são bons (e raros hoje em dia) mas a liberdade de expressão e de informação não pode servir de desculpa para o que muitas vezes chega a ser “terrorismo mediático“.

Está à vista a falta de capacidade para se auto-regularem, e pior do que isso estão cada vez mais à vista as manobras por detrás dos orgãos da comunicação social para que estes sirvam como veículos ou armas, numa guerra de poder (seja ele político, empresarial ou corporativo).

Do que conheço de Rui Rio, e pelo que pude interpretar das suas palavras (não apenas das de ontem mas por exemplo das que escreveu no livro “Politica, in situ“), ele não pretende calar ninguém. Não pretende censura. Pretende, isso sim, regular e responsabilizar quando ultrapassados os limites da liberdade.

Sim, porque a liberdade de uns acaba exactamente onde começa a liberdade dos outros. Neste momento tudo é permitido, e a maioria da comunicação “dita” social nem sequer tem pejo de escrever ou dizer certas coisas, mesmo que todos saibamos que isso pretende obedecer a certos lobbys ou interesses.

E para além de muitas vezes serem tendenciosos, são também incompetentes e incendiários. Não informam, nem querem! A única coisa que sabem fazer (salvo raríssimas excepções) é chafurdar no infortúnio e na desgraça dos outros. “Quanto pior melhor“. E depois dissertar sobre o sound bite e a “espuma dos dias“.

Quanto a mim, e agora pensando nos jornalistas que prezo e aprecio, penso que até era bom para eles haver “balizas” e responsabilização. Isso afastaria da profissão os maus jornalistas, e aí eles evitavam generalizações e serem todos metidos no mesmo “saco”. Tal e qual como fazem com os políticos.


Pergunta que se impõe (II)

08/01/2011

Porque raio o papel higiénico é taxado a 23%? A taxa mais elevada do IVA? Normalmente não olho para o talão das compras, mas por curiosidade (devido ao aumento do IVA) olhei na 2º feira. Só tinha comprado bens de primeira necessidade, e era tudo a 6%. Hoje comprei PH e ao olhar vi 23%!! Mas que raio, se o PH não é bem de 1º necessidade, então o que é? Querem que limpemos o rabo aos jornais?… pensando bem, alguns jornais só servem mesmo para isso.

O tabu da TV pública

26/09/2010

Recentemente o PSD tornou pública a sua proposta de alteração à Constituição da República. Muitas vozes se levantaram em relação a um tema que é tabu na nossa sociedade: a privatização da RTP, ou a não existência de meios de comunicação social do Estado. Em vez de olhar para a proposta com preconceitos, vale a pena reflectir um pouco.

No início do séc XIX começou a luta pela liberdade de imprensa, pelo facto de esta servir para contrariar o despotismo dos governos. A imprensa era um meio de fiscalização dos que detinham o poder. Os maiores defensores de uma imprensa livre diziam que ela ajudava a “controlar a auto-preferência habitual de quem governa” e obrigava os poderosos a respeitar e servir o povo.

Estas linhas mestras desaconselham que haja meios de comunicação social tutelados pelo governo. Senão, que é feito da opinião livre que pode fiscalizar o governo? Temos a liberdade de imprensa como dado adquirido em Portugal (desde 25/04/74), mas o facto é que existe auto-censura. São os próprios jornalistas que se censuram a si próprios. A (in)consciência diz-lhes que há muito em jogo: a reputação, a família, o emprego ou o processo judicial iminente. Essa auto-censura obriga-os amiúde a pensar duas vezes.

O dever dos governos é zelar pelo interesse comum, mas o facto é que esse papel tem cabido mais à imprensa. Ela reprova incompetentes, déspotas ou tiranos que tentam asfixiar ou fugir à opinião pública. A imprensa livre expõe publicamente os abusos do poder político. Ao contrário, sabemos como a imprensa que depende do governo pode ser usada como veículo de propaganda de interesses político-partidários que procuram influenciar a opinião pública.

Outra questão que se tem levantado também, é a do princípio da universalidade subjacente ao serviço público. O famoso princípio de que os canais de rádio e TV devem transmitir programas que abranjam uma vasta audiência e satisfaçam todos os gostos. Tem a RTP seguido esse princípio? Ou será que temos hoje uma TV pública que apenas tenta concorrer com as privadas, esbanjando o dinheiro dos nossos impostos.

Se querem manter uma TV do Estado, talvez seja melhor enveredar pelo caminho já sugerido por alguns: TV sem publicidade. Isto porque o que temos visto são os efeitos decadentes que tem o poder da publicidade sobre os programas de TV. A publicidade comercializa a estrutura e o conteúdo dos programas. O êxito é medido em termos de rendimentos publicitários e níveis de audiência.

Isto faz com que aumente o lixo televisivo: programas em que se transformam casos judiciais em peças barrocas de TV; novelas e séries cheias de cenas de sexo, adultério, traição e crime; Reality Shows onde abunda a devassa. E assim sendo perde-se o espaço para programas pedagógicos, cultura nacional, documentários sobre história… enfim, o tal princípio da universalidade.

O que se quer numa TV pública? É um canal que cultive a indústria de massas que produz ilusões e faz prevalecer a satisfação expressa em banalidades, reinar o pseudo-individualismo e encorajar as pessoas a não pensar em termos críticos acerca de coisa nenhuma? Queremos um canal que lute por audiências oferecendo programas de diversidade insuficiente, que duplique inutilmente tipos de programas? (Novelas, Reality Shows…).


Poder Político 10-0 Poder da Sociedade

10/09/2010

Mais um excelente editorial do Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios. Desta vez a propósito do ranking que o diário elaborou com os 25 mais poderosos da economia portuguesa (Curiosamente, há 5 semanas, vaticinei Ricardo Salgado como o 1º e acertei).

De entre várias considerações interessantes que o director do jornal faz, relevo as seguintes, que considero as mais importantes:

“há um movimento que é desconhecido dos nossos poderosos: o do poder que vem da sociedade. Das pessoas. Não são escolhas políticas, nem herdeiros, nem falsos predestinados de lobbies financeiros e empresariais. São poderosos não por causa disso mas apesar disso – ou mesmo contra isso […]

[…] nada é mais inquietante do que a incapacidade de renovar elites, de desafiar a estrutura de poder instalada, de mudar esta economia de século XX que se arrasta em 2010. Portugal é Ptolomeu num mundo Galileu. Teremos sempre poderosos. Mas, assim, nunca o seremos.”


A hipocrisia de certa esquerda

03/08/2010

Não sou hipócrita. A morte de uma pessoa que não conheço não me afecta muito. De qualquer forma não sou frio ao ponto de desprezar, e nem sequer pensar um pouco, quando as mortes acontecem, e principalmente se são em massa. Também não sou sectário. As mortes em massa impressionam-me seja por que causa for, e nenhuma é perdoável.

Naturalmente tocam-me mais as mortes que estão mais próximas, mas pelo visto não é assim com toda a gente. Costumo ver muitas vezes, em blogues e imprensa mais à “esquerda” gritos de revolta contra as guerras no Iraque ou no Afeganistão. Mas curiosamente nada vejo sobre o que se passa cá dentro. E isto faz-me uma certa confusão.

Lembro os impressionantes números da guerra do Iraque. Entre 2003 e 2009 morreram por ano 675 militares da coligação, num total de 4700 mortes. Em 2010 já morreram 43 soldados. Em Portugal, entre 2003 e 2009 morreram nas estradas um total de 6800 pessoas, ou seja, 971 vítimas mortais por ano.

Desde o início do ano morreram 406 pessoas nas estradas, disse a estatística da ANSR. E “estes números dizem respeito às mortes no local do acidente ou durante o percurso para o hospital“, não contaram as pessoas envolvidas nos acidentes que morrerem nos hospitais nos 30 dias seguintes.

Volto a repetir o que já escrevi em 2008: O que faz essa gente de esquerda “quando todos os dias vêem nos noticiários mortes nas estradas de Portugal? Ignoram ou dizem “olha… mais um”. Ficam completamente indiferentes […] Não ficam revoltados com os responsáveis, com os governantes, com eles próprios“. Mas se a causa da morte for motivo para atacar a “direita”… haja hipocrisia.


Somos o 2º país mais desenvolvido de África

02/02/2010

Depois dos casos de João Miguel Tavares, Manuela Moura Guedes, José Eduardo Moniz, José Manuel Fernandes, etc. Depois dos casos da TVI, do Público, do Sol, etc. Ainda há quem tenha dúvidas. Ainda há muito boa(?!) gente que crê que Sócrates, este Governo e o PS não convivem mal com a liberdade de expressão. Algo conquistado no tão falado 25 de Abril de 1974.

O caso de Mário Crespo comprova que o PM não é só uma pessoa que convive mal com a crítica. Não é só uma pessoa que tem pouca capacidade de encaixe. Não é só uma pessoa que despreza e não respeita a opinião plural. Este caso prova que José Sócrates actua como se de um chefe de estado africano ou sul-americano se tratasse. Não tem problema nenhum em contactar pessoalmente empresários, gestores, directores, e dizer-lhes directamente que se as suas empresas vão contra ele, o “caldo está entornado”.

Além disso está mais do que visto o nível intelectual dele como pessoa. Toda a gente sabe e conhece palavrões. Toda a gente tem acessos de raiva interior. Mas nunca um membro de um governo poderia falar naqueles termos sobre alguém. Nem sequer em casa, em frente aos seus filhos. Quanto mais num local público, na presença de outros membros do governo e altos empresários.

Não posso deixar de fazer um paralelo que já fiz noutras ocasiões: Hugo Chávez conquistou o poder pela retórica. Sócrates também. Hugo Chávez não tem feito nada para melhorar a vida do seu povo. Sócrates também. Hugo Chávez mantém à sua volta um grupo restrito que se alimenta do Estado. Sócrates também. Hugo Chávez fecha orgãos de comunicação social que são contra “regime”. Sócrates também (dentro da medida do possível).

Só há uma coisa que Sócrates ainda não fez… foi prender Carvalho da Silva ou Mário Nogueira por liderarem manifestações. E também não me parece que consiga fazer outra coisa… mandar matar líderes dos partidos da oposição. Olhem bem a sorte destes senhores… Portugal ainda faz parte do continente Europeu, e está incluído na União Europeia.

Mas por vezes, tal como costumo dizer, Portugal parece o país mais desenvolvido do continente africano, a seguir à África do Sul.


ERC – Entidade (que não) Regula (um) Caroço

12/01/2010

Aprecio muito o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e penso que pode ser uma mais valia para o país e para o PSD. Concordo com algumas coisas que ele diz, mas também discordo profundamente de outras. Há cerca de 2 anos que deixei de seguir “religiosamente” a sua “missa” ao Domingo, porque ultrapassou o mero programa de comentário político.

A RTP vai acabar com o programaAs Escolhas de Marcelo“, em consequência do fim do programa “Notas Soltas” de António Vitorino. Se já foi uma aberração a obrigação da RTP criar o segundo, para compensar o primeiro, maior vergonha foi o encurtar do primeiro para igualar o segundo. E agora o escândalo atinge proporções irreais com o fim de um por causa do outro. Tudo isto segundo uma ordem da ERC, que todos sabemos andar a mando do Governo de José Sócrates.

Nem quero aqui entrar por um caminho que me levaria a dizer que, com base no que já se tinha passado antes (as tais bojardas da ERC a mando do Governo), António Vitorino teria feito de propósito para saír (talvez também ele a mando), e deixar MRS sem espaço para se exprimir. Logo agora que estamos a chegar a uma altura complicada para o PS e Governo, e também será agora que o PSD se irá definir e começar a reganhar fôlego. Logo agora que nos aproximamos das presidênciais, e que todos sabem que MRS tem ambição de se candidatar.

Todos estes episódios de compensação são ridículos. Senão, porque não obriga a ERC a fazer um programa desportivo com representantes de Braga, Nacional ou Guimarães, para compensar as dezenas de Portistas, Benfiquistas e Sportinguistas em programas da RTP? Ou porque não obriga a ERC a fazer um programa musical com artistas punk e heavy metal, para compensar todos os outros populares e pop que aparecem nos vários programas da RTP? Porque não obriga a ERC à passagem de filmes portugueses, para compensar a porcaria de filmes americanos (que ainda por cima são sempre os mesmos, basta lembrar “Sozinho em Casa” no Natal ou “Ben-hur” na Páscoa) na RTP?


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