À atenção da Comissão de Educação e Ciência

21/12/2010

Recentemente foi elaborado um relatório sobre “A Ciência em Portugal“. Este relatório foi entregue na AR, à Comissão de Educação e Ciência. Destaco o capítulo que fala de “Carreiras e Oportunidades de Trabalho Científico – Factores Condicionantes, Obstáculos e Sugestões… ou A defesa da competência, do mérito, da responsabilidade e da ética“.

Este capítulo foi coordenado pelo José António Salcedo (CEO da Multiwave Photonics), um especialista nesta matéria, pelo qual tenho imenso respeito e consideração. Deixo abaixo alguns excertos, mas aconselho vivamente a leitura integral do documento. Desejo também, que os deputados da Comissão de Educação e Ciência o tenham lido com atenção, e façam algo para aproveitar este trabalho.

“Os programas doutorais estão orientados para formar investigadores e não cidadãos particularmente bem habilitados a criar valor na sociedade em actividades profissionais diversas através do exercício da sua autonomia intelectual e capacidade de pensar, modelar e propor soluções […] Tal contribui para que a sociedade e as suas instituições – empresas em particular – tenham dificuldade em compreender o potencial de criação de valor que um doutorado pode aportar.”

“Os programas doutorais são omissos quanto ao desenvolvimento de competências e capacidades importantes para uma vida profissional bem conseguida […] Podem apontar-se as seguintes: Pensamento crítico – Análise; Visão estratégica – Síntese; Trabalho e avaliação – Mérito; Equipas e comunicação – Coaching; Responsabilidade e ética – Cidadania […] Pessoas que disponham das competências anteriormente referidas estarão em posição privilegiada para criar valor em qualquer sociedade e para assumir um papel de liderança na sua transformação.”

“No que respeita a comportamentos, os programas doutorais vigentes não desenvolvem nos doutorandos atitudes […] quer para que encontrem oportunidades de trabalho, quer para que estejam habilitados a criar a sua própria oportunidade de trabalho […] Como exemplo […] indicam-se a valorização preferencial da capacidade de pensamento crítico em detrimento da especialidade científica adquirida, o gosto em assumir responsabilidades pela equação e resolução de problemas, o gosto em constituir e liderar equipas em projectos concretos em que os resultados a alcançar são essenciais, a aceitação da avaliação nua e crua dos resultados conseguidos como forma mais correcta para melhorar, a humildade de compreender que existem muitos saberes importantes na vida para além do científico e que muitos desses saberes são implícitos e resultam da experiência, a importância crescente de saber viver e trabalhar em ambientes multi-culturais assim como o gosto por assumir riscos para procurar construir o futuro que cada pessoa gostaria de ter”

“Ocorre frequentemente um desalinhamento de expectativas entre um doutorado e uma instituição que o acolhe […] um doutorado cria expectativas salariais e/ou de enquadramento profissional que não encontram eco na sociedade e nas suas instituições, assim como uma sociedade que é pouco instruída desenvolverá naturalmente aversão a enquadrar um doutorado num contexto profissional quer for factores salariais, quer por outros, sejam técnicos ou comportamentais.”

“A melhor forma de corrigir este desalinhamento é promover mecanismos de comunicação entre instituições de formação doutoral e do mercado de trabalho […] a circulação temporária de pessoas entre as várias instituições […] as universidades deveriam valorizar sabáticas em empresas ou na administração pública, assim como quadros de empresas ou da administração pública deveriam ser estimulados a leccionar ou estagiar periodicamente em universidades ou instituições de I&D.”

“Pretende-se assegurar um grau superior de desenvolvimento do País através da incorporação na sociedade de pessoas habilitadas com conhecimento científico […] O grau de desenvolvimento e riqueza de uma sociedade vem determinado pela capacidade dessa sociedade em criar valor, e o valor criado aumenta quando se constrói através da exploração de conhecimento. A expressão inovação significa precisamente criação de valor através da exploração económica de conhecimento.”

“…em Portugal […] o processo educativo vigente não contribui para o seu desenvolvimento, possivelmente antes pelo contrário, nem a sociedade ou as suas instituições, começando pela administração pública, as valoriza de forma regular […] igualar diplomas do 12º ano do ensino regular com diplomas das Novas Oportunidades – sem aprendizagem de competências profissionais – é um sintoma de total desrespeito pelo valor do trabalho e do mérito e seria inadmissível em sociedades mais desenvolvidas, nas quais educação é encarada com seriedade e tida como factor importante para o desenvolvimento.”

“Em Portugal […] o sistema público não valoriza particularmente pensamento crítico, visão estratégica, trabalho e avaliação, equipas e comunicação, responsabilidade e ética, nem avalia e premeia o mérito de forma isenta, regular e sistemática. Uma das principais razões é que o actual modelo de Estado está errado, porque centraliza excessivamente todos os processos decisórios, estimulando a desresponsabilização das pessoas e das instituições.”

“Não resultaria prejuízo significativo se o Estado tivesse um peso reduzido na sociedade e na economia; infelizmente tal não ocorre, pelo que as competências e as atitudes estimuladas pelo Estado acabam por ter uma influência determinante na sociedade, nas suas instituições e na forma como elas operam […] as inúmeras nomeações políticas de pessoas sem qualificações nem competências profissionais para exercer cargos de elevada influência na administração pública, no sector empresarial do Estado e nas instituições que sucessivos governos têm criado.”

“Ao adoptar critérios permissivos para muitas das suas iniciativas, o Estado está a passar à sociedade a mensagem de que não é necessário trabalhar para desenvolver competências ou ter mérito, nem assumir responsabilidades bem reais se queremos ter uma vida melhor – o que será necessário é ter contactos apropriados […] situações deste tipo adulteram competição e dificultam inovação e, a médio prazo, prejudicam a cidadania e a própria democracia.”

“Um doutorado, em princípio, estaria em condições intelectuais ideais para corresponder ao perfil de competências que fossem mais valorizadas pelo mercado de trabalho. No entanto, é raro tal suceder. No ambiente protegido e tranquilo das academias nacionais, os desafios, as tensões e os paradoxos de uma vida empresarial não se fazem sentir com dinamismo. Por outro lado, pessoas que concluem um grau de doutoramento não adquiriram em geral competências organizativas, de gestão ou sequer relacionais e de liderança, pelo que sentem dificuldades naturais em ser atraídas por ambientes em que o cumprimento de prazos e objectivos seja exigido e avaliado, com os resultados da avaliação produzindo consequências reais e imediatas, assim como seja esperada a constituição e liderança de equipas capazes de abordar e resolver problemas com eficácia.”

“Enquadrar doutorados em PME é um desafio grande, porque do lado das PME existem igualmente questões de natureza fundamental que dificultam o enquadramento profissional de pessoas com competências científicas. Frequentemente PME são empresas de origem familiar e com predominância da função comercial, e estão assentes numa lógica pouco orientada para a tecnologia, em que existem frequentemente limitações sérias em termos de conhecimento científico, capacidade financeira, de organização e de gestão.”

“Frequentemente, uma PME nacional é avessa culturalmente à introdução na sua estrutura de uma pessoa habilitada com conhecimentos científicos, porque os líderes empresariais desse tipo de empresas raramente as têm. Existe assim e logo à partida um desalinhamento cultural – e uma desconfiança – que fica agravado se o doutorado não tiver atitudes que o empresário seja capaz de sentir como próximas das suas e que mais valoriza.”


#GreveGeral FPs, rapaz do jornal e Bruno Nogueira aderem

24/11/2010

Acho bem que a Greve seja um direito do povo consagrado na Constituição. É legítimo que haja organizações a liderar a Greve. Compreendo que numa situação como a que Portugal está, o povo queira demonstrar o seu descontentamento. No entanto, eu não adiro a nenhuma Greve deste tipo.

Feita a declaração de interesses é tempo de dizer que – salvo raras excepções que confirmam a regra – só se vêem os funcionários públicos a aderir à Greve. Curiosamente são aqueles que mais privilégios e protecção têm no seu emprego. Será por não terem patrão que não hesitam em fazer gazeta?

Apenas se vêem a aderir à Greve as empresas públicas, semi-públicas, ou ex-públicas. Exemplo são as Câmaras Municipais, as Escolas, os CTT, os STCP e Carris, o Metro e a CP. Aliás, é fácil de confirmar através da comunicação “dita” social, que só faz reportagem à porta das serviços públicos e estações de transportes.

Curioso não se ver nenhuma equipa de reportagem à porta de empresas privadas e grandes (os tais capitalistas) como a AutoEuropa, a Sonae, o BES, a Zon, a Portucel, a Martifer, a Jerónimo Martins, entre outras. Porque será? Não será com certeza do Guaraná…

De resto, a paralização do país – anunciada pelos sindicatos – não a senti. A única coisa em que reparei foi, no caminho para o trabalho, não ter visto o rapaz que costuma estar a distribuir jornais no semáforo da Duque Loulé junto ao Marquês de Pombal, e também não ter ouvido o “Tubo de Ensaio” da TSF.


Poder Político 10-0 Poder da Sociedade

10/09/2010

Mais um excelente editorial do Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios. Desta vez a propósito do ranking que o diário elaborou com os 25 mais poderosos da economia portuguesa (Curiosamente, há 5 semanas, vaticinei Ricardo Salgado como o 1º e acertei).

De entre várias considerações interessantes que o director do jornal faz, relevo as seguintes, que considero as mais importantes:

“há um movimento que é desconhecido dos nossos poderosos: o do poder que vem da sociedade. Das pessoas. Não são escolhas políticas, nem herdeiros, nem falsos predestinados de lobbies financeiros e empresariais. São poderosos não por causa disso mas apesar disso – ou mesmo contra isso […]

[…] nada é mais inquietante do que a incapacidade de renovar elites, de desafiar a estrutura de poder instalada, de mudar esta economia de século XX que se arrasta em 2010. Portugal é Ptolomeu num mundo Galileu. Teremos sempre poderosos. Mas, assim, nunca o seremos.”


Redes Sociais vs Produtividade

12/08/2010

Um recente estudo concluiu que as redes sociais estão a custar cerca de 17.000 M€/ano à economia britânica. Segundo o relatório “metade dos trabalhadores britânicos acede ao Facebook e ao Twitter durante o horário de trabalho e mais de metade admite ter actualizado o seu perfil enquanto estava no emprego […] Um terço afirmou ainda gastar cerca de 30m/dia naqueles sites“.

De qualquer forma, em resposta a uma das perguntas do estudo, grande parte dos inquiridos disse que o acesso às redes sociais não tinha impactos negativos no trabalho. Outros 14% admitiram ser menos produtivos e 10% disseram até que usar as redes sociais contribuía para um aumento da produtividade.

O director da empresa que realizou o estudo não concorda: “os resultados obtidos demonstram que os trabalhadores estão a usar cada vez mais as redes sociais no trabalho, o que, se não for devidamente avaliado, pode ter repercussões negativas na produtividade de muitas empresas“. Acrescentou ainda que “As empresas deveriam monitorizar o acesso às redes sociais e assegurar que os seus trabalhadores não estão a abusar“.

Ora, sabemos por experiência própria que muitas empresas até já bloquearam o acesso às redes sociais, mas será esta a melhor solução? Não se trata sequer de confiar ou não na responsabilidade de cada um e deixar ao seu critério o acesso às redes sociais. Trata-se isso sim de “as empresas conseguirem aumentar a produtividade das pessoas com o uso das redes sociais“, tal como escreve Eduardo Mayer Fagundes neste artigo.


Só para encobrir Sócrates

29/07/2010

O saldo na novela entre a PT e a Telefónica é: a PT trocou posição maioritária numa empresa tecnológicamente avançada e em expansão (Vivo) por posição minoritária numa outra empresa vulgar e inerte (Oi). Mas por incrível que pareça, ainda há quem diga que foi bom negócio, e pior há quem acredite nisso. Como se não estivessemos fartos de opiniões encomendadas na imprensa.

Pior do que tudo isto é que a entrada da PT na Oi não se deveu ao facto de ser um bom negócio. Foi simplesmente para encobrir as palavras de José Sócrates aquando da utilização indevida e ilegal da Golden Share do Estado. Lembre-se que o PM invocou o “interesse estratégico nacional” para vetar a venda que a maioria dos accionistas aprovara em AG. Mais uma vez (depois do caso TVI) a administração da PT usou dinheiro dos accionistas ao serviço do Governo do PS de Sócrates.

Muitos disseram que vender a participação na Vivo, distribuindo o dinheiro pelos accionistas e reduzindo a dívida era fazer da PT a uma empresazita. Mas quem disse que tinham de vender e ficar quietos? Claro que tinham de investir noutro lado, mas não tinham era de ir comprar, à pressa, uma posição numa qualquer empresa brasileira, só para encobrir as desculpas esfarrapadas de José Sócrates.

Alguns dizem que a longo prazo vai ver-se que a PT tomou opção correcta e vai fazer da Oi uma outra Vivo (como se tudo o que a PT tocasse se transformasse em ouro). Pois eu acho que a longo prazo a PT e principalmente os seus administradores vão perder credibilidade nos mercados internacionais, pelo facto de andarem ao serviço do ego e da vontade de um désputa.


O Portugal que não quero (III)

03/07/2010

Depois da vergonhosa participação da selecção nacional no campeonato do Mundo de futebol (tanto na qualificação como na fase final) veio Gilberto Madaíl dizer que a equipa cumpriu o objectivo mínimo, que foi eliminada contra uma equipa teoricamente superior e congratulou-se também pelos desaires precoces de França e Itália.

Eu pergunto: isto é atitude de um verdadeiro líder? A atitude deste senhor é o exemplo do que há de pior neste país. O típico portuga também só trabalha para os mínimos, resigna-se com a derrota e fica contente com o mal dos outros, para desculpar o seu falhanço.

Dizemos que metade da população vive à custa de subsídios do Estado, mas esquecemo-nos que muitos dos que têm emprego vivem à custa do “subsídio” da empresa. No seu dia-a-dia, o típico portuga não se esforça para trabalhar mais e melhor, para trazer valor acrescentado à empresa, para conquistar novos patamares e novas vitórias.

Assim sendo, fazendo apenas os serviços mínimos, este ser quase acéfalo só está a trabalhar para levar o ordenado (subsídio) ao final do mês. Não contribuindo em nada para um país melhor e em crescimento.


Diminuir défice? Começem pelo mais dificil !!

11/05/2010

Todas as empresas privadas que conheço tomam certas medidas de poupança de recursos. Todos os gestores destas empresas percebem que é com as pequenas coisas que se podem fazer grandes poupanças. Daí que as primeiras medidas a tomar tenham sido o controlo do papel nas impressoras, das impressões a cores, da distribuição de material de escritório, da gasolina e pneus nos automóveis, das chamadas nos telemóveis, das luzes acesas fora do horário de trabalho, etc.

Algumas destas empresas de que falo têm 10 funcionários, outras 1000. O que seria se no Estado (governo, empresas públicas, institutos, repartições, etc.), com cerca de 700.000 funcionários, se fizesse este controlo? E não venham dizer que é uma gota no oceano. A empresa na qual trabalho tem cerca de 2000 funcionários, é líder na sua área de negócio e é uma empresa cotada em bolsa. Se estas poupanças não fossem reais e não tivessem peso algum, os seus gestores de topo não perdiam tempo com elas.

Ao contrário do que parece, estas são as medidas mais difíceis a tomar. Isto significaria tirar pequenas ou grandes benesses aos funcionários públicos, desde o funcionário de balcão da repartição até ao Ministro. Para um Governo sem coragem e mais preocupado com os seus boys, como é o de José Sócrates, é bem mais fácil aumentar impostos.


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