Opinião: O fado dos Jogos Olímpicos

03/12/2011

Artigo de opinião que escrevi para o Sovolei, e ficará arquivado também aqui:

A selecção portuguesa de voleibol falhou recentemente a sua tentativa de qualificação para os Jogos Olímpicos de Londres 2012. Com ela, gorou-se qualquer tipo de possibilidade de Portugal ter uma modalidade colectiva representada nas Olimpíadas. Mais uma vez, serão apenas atletas individuais a representar o país. Cerca de 70 atletas, na sua maioria praticantes de atletismo.

Em mais de um século (contabilizando os Jogos Olímpicos da era moderna) Portugal teve apenas 4 equipas em modalidades colectivas. Uma equipa de pólo aquático em Estocolmo 1956 e três equipas de futebol em Amesterdão 1928 (5º lugar), Atlanta 1996 (4º lugar), e Atenas 2004 (14º lugar). Todas as outras participações, com mais ou menos brilho, estiveram a cargo de atletas individuais.

Incompreensivelmente o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) dá agora como desculpa o facto de Portugal estar inserido na Europa, onde as fases de apuramento são extremamente difíceis. Vicente Moura ocupa o lugar desde 1992 (com interrupção entre 93 e 96) e descobriu 20 anos depois que estamos num continente competitivo. Talvez preferisse mudar o país para a Oceania.

Também estranhamente, Vicente Moura diz que o “futebol depende sobretudo da qualidade das novas gerações” porque o apuramento é feito pelos sub-21. E o problema das outras modalidades é qual? É precisamente o mesmo, mas indirectamente! A falta de aposta na formação no seio das modalidades ditas amadoras, é o que impede o desenvolvimento sustentado e a falta de talentos nas formações seniores.

O presidente do COP, diz que Andebol e Basquetebol têm hipóteses nulas para chegar aos Jogos Olímpicos. Diz que o Voleibol ainda não tem qualidade, falhando três fases de qualificação. E Que apenas o Futebol o pode fazer, mas não quer. Assume que a Federação Portuguesa de Futebol nunca considerou os Jogos Olímpicos como sendo prioritários, porque colide com os interesses dos clubes.

Mas o que aqui está em causa é o interesse do país, do desporto, dos atletas? Ou é o interesse de clubes e agentes? O que o Futebol tem feito no que diz respeito aos Jogos Olímpicos é vergonhoso. Um bom exemplo, é o de 2004. Com Moreira, Bruno Alves, Bosingwa, Meira, Meireles, Ronaldo, Hugo Almeida, Danny ou Carlos Martins, ficamos em último num grupo com Costa Rica, Marrocos e Iraque.

O que fez Vicente Moura para lutar contra isto? Para mudar o paradigma do desporto português, que está bêbado de Futebol? Para lutar pelas outras modalidades, ditas amadoras? Para que serve o lugar que ocupa? Apenas para colher os louros quando os atletas individuais (sabe Deus com que esforço, lutando com quem tem condições incomparavelmente melhores no seu país) vencem medalhas?

O presidente do COP já se devia ter demitido. Tal como outros, que estão agarrados aos seus lugares em Comités, Confederações, Federações e outros organismos. O seu trabalho é manifestamente incompetente. Trata apenas da gestão corrente, sem qualquer tipo de estratégia que permita desenvolver o desporto português, tendo como consequência o desenvolvimento pessoal e social dos atletas portugueses.

Para além de uma estratégia e uma política bem definidas, sabemos como faltam apoios a todas as modalidades. Nas individuais passa despercebido, porque a qualificação é feita por mínimos, e não por vitórias. Mas nas colectivas é notório, porque é preciso vencer para se qualificar. E por se tratar de um conjunto de atletas, é também necessário haver condições que agreguem vontades.

No que concerne ao Voleibol, e mesmo com as condições que temos, estamos muito perto. Era necessário que algo de fundo mudasse para que pudéssemos atingir o objectivo olímpico. Desde logo a mudança de quem lidera. O actual seleccionador diz que é preciso começar a trabalhar já na “renovação do grupo, começando a introduzir alguns jovens na competição, porque há jogadores em final de ciclo”.

Pergunto o que faz ele, junto da Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) para alterar o status quo? Para além de não ajudar no apoio aos clubes (eles sim, os únicos que têm possibilidade de “fabricar” novos talentos), ainda está imbuído da cultura da FPV, disparando sobre os próprios atletas. “Não podemos estar dependentes de quem vem ou não à Selecção”, aludiu recentemente à ausência de Hugo Gaspar.

O que queria Juan Diaz? Que Hugo Gaspar comprometesse o seu futuro como médico, para se juntar a um grupo que estava, logo à partida, derrotado pelos seus responsáveis, que nele não confiam? Infelizmente, e por culpa de quem gere a modalidade há décadas, Hugo Gaspar não pode assegurar o seu futuro como atleta de Voleibol, e por isso lutou (com esforço e privações) por uma garantia de futuro.

Juan Diaz diz que é preciso “estruturar um programa a longo prazo e cumprir as metas estipuladas”. Pergunto, há quantos chegou a Portugal? Há cerca de 10 anos! E só se lembrou agora que é preciso uma estratégia de longo prazo? Porque não a propôs ou implementou desde logo? Contribuiu activamente para que tudo ficasse na mesma, aproveitando pelo meio o talento de uma geração.

Se Portugal quer estar representado por modalidades colectivas nos Jogos Olímpicos tem de em 1º lugar limpar a estrutura dirigente nas federações desportivas; Em 2º lugar reformar as suas políticas e estratégias desportivas; Em 3º lugar dar aos clubes a liberdade para, em conjunto, decidir a maneira como formam os atletas e gerem o seu dia-a-dia; Em 4º lugar dar às associações o poder para intervir na modalidade.


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