Emigrante, Saudade e o Triste Fado

04/01/2015

Tal como todos os emigrantes, fui a Portugal passar o período de Natal e Ano Novo, para estar com a família e com os amigos. Um dia antes de regressar a Londres estava a passar a tarde com amigos quando um desconhecido me é apresentado. Como é natural, quem nos apresentou acrescentou que eu estava a viver no Reino Unido e tinha vindo passar férias. Vai daí o tal desconhecido, com ar grave, comentou: “Pois… eu sei como é… tenho muitos amigos que infelizmente estão lá fora”.

Confesso que o ar circunspecto e a palavra “infelizmente” me incomodou, mas por respeito ao amigo que temos em comum, e por estarmos rodeados de mais gente, entendi ignorar e fazer de conta que não ouvi. Ao contrário de outras, aquela não era a melhor situação para entrar num argumento. Até porque o que eu tinha para dizer iria deixar mal aquela pessoa. Apesar de provavelmente ela merecer ficar mal, por ser tão pobre de espírito e ter feito o despropositado comentário.

A verdade é que aquela pessoa julgou que com o comentário me agradaria, bem como ao resto da plateia. Achou que estava a dizer uma grande coisa, que lhe ficaria bem naquela situação. Para lhe dar mais alento, eu deixei passar, e quase todos os presentes (mesmo aqueles que me conheciam) fizeram uma expressão de anuência com aquela cara meio triste meio conformado, colando-me aquele selo de pobre coitado obrigado pelo Governo a deixar o país.

Irritou-me profundamente, e noutra qualquer situação eu teria retorquido. Mas, como disse, por várias razões, naquela altura deixei passar (apesar de, desde então, me roer por dentro por ter ficado calado, daí este post). É que odeio esta ideia estúpida e generalizada de que emigrar é mau. Que só emigra quem está desesperado e a isso foi obrigado. Que quem emigra está pior do que se estivesse em casa. Em Portugal é políticamente correcto ter pena do emigrante.

Ao contrário da maioria dos calimeros (*) a quem a comunicação “dita” social dá destaque, estou felicíssimo a viver em Londres. Depois de estudar 6 meses em França (Erasmus), emigrar era algo que procurava desde o início da minha carreira profissional. Foi uma decisão planeada e amadurecida, não fruto de qualquer conjuntura (aliás, tinha emprego seguro, numa das melhores empresas do país). Foi a melhor decisão que tomei, e tem-me permitido crescer e realizar muito mais.

Desde que deixei Portugal tive o prazer de conhecer dezenas de outros emigrantes portugueses (não só no Reino Unido mas em vários países da Europa e de outros continentes). Posso afiançar e testemunhar que a grande maioria deles emigrou por vontade própria (ninguém ou nada os obrigou) e que, acima de tudo, está feliz com a vida que leva na cidade/país que escolheu. Pelo que a ideia e comentários de que somos alvo só demonstram a tacanhez de uma parte do povo portuga.

Para que não haja dúvidas, todos nós adoramos Portugal, as nossas cidades natal, as nossas famílias, os nossos amigos. Todos gostamos de voltar sempre que podemos, e no regresso trazer as alheiras, o vinho, o bacalhau e as bolachas maria (entre muita outra coisa). Mas ao contrário do que diz o fado, Saudade não significa necessáriamente melancolia. Quando a palavra foi criada (séc. XVI) e até há 20 anos atrás, a solidão consumia quem ia para longe. Hoje, no mundo globalizado do séc. XXI, isso notoriamente não acontece, nem nada disso faz sentido.

* ler artigo do Nuno Abrantes Ferreira há precisamente 1 ano no Público


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