Selecção Feminina – Para mal dos nossos pecados

24/08/2011

Artigo de opinião que escrevi para a rúbrica “Zona 7″ do Sovolei:

A selecção nacional de seniores femininos – liderada pela cubana Gilda Harris – vai defrontar a Áustria numa fase de pré-qualificação para os Jogos Olímpicos Londres 2012. Os jogos terão lugar nos próximos dias 2 e 3 Setembro.

Terá o leitor reparado que escrevi “selecção nacional” com letras minúsculas, quando deveria ter escrito “Selecção Nacional” com letras maiúsculas. Mas não foi por acaso ou por lapso que o fiz. Foi mesmo propositadamente.

Mais uma vez a convocatória – para uma competição tão importante – é insólita (para aplicar o termo já usado pelo Sovolei anteriormente). Ela encerra atletas que nem idades de sénior têm. Há mesmo atletas com 14 e 15 anos.

Além do mais, e curiosamente, não há uma única atleta dos clubes Campeão e Vice-Campeão Nacional. E diga-se que, tanto CD Ribeirense como CA Trofa tinham nos seus quadros atletas portuguesas de grande qualidade.

Aliás, dos 5 primeiros classificados do campeonato 2010/2011, apenas o CS Madeira está representado (e muito bem) por Fabiola Gomes. O clube com mais atletas (3) é o CF Belenenses que se quedou pelo antepenúltimo lugar.

Clubes como o GC Santo Tirso ou o Leixões SC (com equipas recheadas de atletas portuguesas), que fizeram uma boa temporada, parecem esquecidos. O primeiro não tem ninguém e o segundo tem uma atleta (que nem sequer é a mais decisiva).

Aos que acham isto normal, aconselho pesquisa pelas formações de outras selecções. Se nos dermos ao trabalho de verificar, por exemplo, as 10 mais bem classificadas do ranking FIVB, vemos que são raríssimas as atletas com menos de 20 anos.

Brasil, EUA, Japão, Itália, Rússia, China, Polónia, Cuba, Sérvia, Alemanha. Em mais de 100 atletas encontram-se meia-dúzia com menos de 20 anos. E dessas muito poucas são titulares, sendo no entanto já atletas confirmadas internacionalmente.

Mesmo a selecção Cubana (conhecida por apostar muito forte na juventude) tem poucas atletas inexperientes. Conta ultimamente com algumas de 17, 18, 19 anos. Mas vejam-se os resultados recentes? Desde 2000 que não tem um grande resultado.

Gilda Harris e companhia, podiam “brincar às casinhas” com as atletas quando e como quisessem, mas escusavam de fazer Portugal e o seu Voleibol (note-se, estes dois com maiúsculas) passar figuras tristes e descredibilizarem-se lá fora.

É que isso tem implicações e consequências. Atletas e treinadores que queiram aventurar-se no estrangeiro, são postos de lado e ridicularizados por serem portugueses. Um país com um Voleibol vergonhoso, segundo a (falsa) imagem que passa a selecção.

Se não houvesse opção até se compreendia. Mas quando se tem: Filipa Duarte, Vanessa Rodrigues, Amanda Belotto, Ana Freches, Ana Couto, Ana Filipa Félix, Natércia Tavares, Joana Resende, Catarina Costa ou Francisca Esteves.

Até Rosa Costa, Maria Carlos Marques, Catarina Mineiro, Maria Carlos Santos, Neuza Reis, Rita Fernandes, Joana Ferreira, Laura Abreu, Raquel Lacerda ou Maria Miguel Santos. E podia enumerar muitas mais de quem me estou a esquecer.

Isto não tira obviamente valor às atletas que estão convocadas. Algumas delas até merecem lá estar, como Fabiola Gomes ou Daniela Loureiro. Não merecem é hipotecar o próprio valor e crédito, jogando numa equipa sem capacidade competitiva.

As restantes atletas, apesar da sua qualidade, têm colegas bem mais experientes e fortes. Não é esta a hora delas na selecção. Muitas terão com certeza lugar no futuro, mas no presente apenas estão a fazer mal à selecção e a elas próprias.

Todos sempre ouvimos dizer que na selecção deverão estar as melhores atletas do momento. Não as mais velhas, não as mais experientes, não as mais promissoras, não as amigas. Mas as melhores. E essas não são com toda a certeza miúdas de 14 anos.

Este assunto já levantou muita polémica, nomeadamente em consequência de duas notícias publicadas pelo Sovolei. Inclusivamente levou a Lusófona VC a pedir uma audiência à FPV para avaliar e esclarecer a situação. Mas, e conclusões? Nenhuma!

Desta forma, o Voleibol Nacional e o Voleibol Feminino em particular (novamente, com letra maiúscula) continuarão a descredibilizar-se, a ridicularizar-se. Arrastando consigo atletas e clubes que, ou vão desistindo, ou vão fechando para mal dos nossos pecados.


Comunicação “dita” social dos lobbies de milhões

27/06/2011

Artigo de opinião que escrevi para a rúbrica “Zona 7” do Sovolei:

Em pleno século XXI, e num país que se diz integrado na União Europeia, custa-me ver certo tipo de coisas da comunicação “dita” social. Ela, que tantas vezes serve para denunciar (e bem) certos tipos de discriminação e sectarismo, é a primeira a fazer exactamente o mesmo, em relação a certas pessoas, entidades, sectores, temas, assuntos ou questões.

A comunicação “dita” social generalista ocupa muito do seu tempo com futebol mas não dá qualquer importância a outros desportos. O que se vê na RTP-2 uma vez por semana é apenas por obrigação de serviço público, e o que se vê na SIC uma vez de 2 em 2 meses é apenas o aproveitamente de ódios e rivalidades entres alguns imbecis adeptos dos grandes clubes.

Nenhum dos canais de televisão ou dos jornais de tiragem nacional generalistas dedica um minuto ou uma linha ao Voleibol, o 2º desporto mais praticado em Portugal, logo a seguir ao futebol. Já os jornais desportivos, uns dedicam a esta modalidade 50 linhas por semana, outros nem isso sequer. No entanto, dedicam páginas inteiras ao Golf e às Apostas, por exemplo.

O que causa esta minha revolta foi há dias ter visto no Telejornal da RTP, em horário nobre, uma notícia sobre a Selecção Nacional Masculina de Voleibol, que disputa a Liga Mundial 2011. Os menos atentos perguntarão porque estou então revoltado? É que a notícia só apareceu porque a comitiva ficou retida num aeroporto devido a uma nuvem provocada por um vulcão.

Ou seja, nem antes, nem durante, nem depois da notícia, foi feita alguma referência ao facto de a Selecção estar a disputar uma das mais importantes competições mundiais. Nem sequer foi dito que nessa altura estava na luta pela qualificação para a fase final, por ter já conseguido importantes vitórias sobre selecções bem mais cotadas e poderosas.

É incrível como pôde a mais antiga e importante estação de televisão de Portugal, dar uma notícia sobre o facto de uma Selecção Nacional estar retida por causa de uma catástrofe (e isso sim é que interessa para as audiências), sem sequer se ter dignado a saber o que ali fazia. O mesmo aconteceu quando essa mesma Selecção venceu a Liga Europeia em 2009.

No fim-de-semana que passou, estiveram em Portugal – numa “clinic” na praia de Canidelo em V.N. Gaia – Larissa e Juliana. As duas brasileiras são as melhores atletas de sempre do voleibol de praia, com vários títulos de Campeãs Mundiais, o mais recente conquistado há bem pouco tempo. Não houve um orgão de comunicação “dita” social que divulgasse isto.

Mas não tenho dúvida que, se aterrasse amanhã, no aeroporto de Lisboa, do Porto, de Faro, ou até de Beja, a namorada do Cristiano Ronaldo, iriam estar lá para a ver chegar todas as televisões, jornais e revistas. Os mesmos que, no(s) dia(s) seguinte(s) iriam encher minutos e páginas a fio com reportagens e imagens sobre coisas que não interessam nem à própria.

É esta a comunicação “dita” social que temos em Portugal. Uma comunicação “dita” social que foge ao seu dever principal (e também a sua razão de existir) de informar, preferindo ser veículo de divulgação de interesses e de lobbies milionários. Sim, porque o Futebol é isso mesmo, apenas um negócio que dá milhões a muita gente, porque de desporto já tem muito pouco.


O voleibol num país de futebóis

04/01/2011

Como muitos de vocês já sabem, sou co-administrador do único site exclusivamente dedicado ao voleibol em Portugal, o Sovolei. Regularmente escrevo no espaço dedicado à opinião, a nossa rúbrica “Zona 7”. Fi-lo mais uma vez esta semana, abordando um tema que pode interessar a quem gosta de desporto em geral. Não só aos amantes do voleibol, mas a todos. Convido-vos a ler o artigo aqui


Nada é perfeito, mas pode ser melhorado

08/07/2010

Como já devem ter dado conta, sou um adepto confesso do voleibol, sendo mesmo colaborador responsável pelo voleibol internacional no único site sobre voleibol em Portugal, o Sovolei. Nos últimos tempos tenho-me preocupado também em pensar o estado do voleibol nacional (exemplos aqui, aqui ou aqui).

Sendo assim, e a propósito da proposta de alterações aos quadros competitivos levada a cabo pela FPV (e que recentemente foi aprovada em Assembleia Geral) escrevi mais um artigo de opinião, que mais não serve do que para dar o meu ponto de vista e provocar o envolvimento de outros intervenientes na modalidade (atletas, técnicos, dirigentes, adeptos).

Os interessados podem ler Nada é perfeito, mas pode ser melhorado aqui.


Feminino, um problema de mentalidades

23/04/2010

Na semana passada o “universo do andebol ficou em choque com o anúncio do abandono de Alexandrina Barbosa da Selecção Nacional“. Além disto a melhor jogadora portuguesa de sempre confirmou que irá naturalizar-se espanhola. Alexandrina justificou esta sua radical opção com a “forma como o andebol feminino português está, e é tratado“. Segundo a atleta que alinha actualmente pelo Itxaco de Espanha, o andebol em Portugal “nunca evoluirá mais do que aquilo que já evoluiu” apesar de garantir que “há bastante valor entre jogadoras e técnicos“. A atleta, que se pode sagrar campeã espanhola este ano, disse ainda “tenho jogado ao mais alto nível e não posso mais trabalhar nestas condições“.

Não posso condenar esta atleta pela sua decisão. E não posso fazê-lo porque tenho bem presente que o desporto feminino português, nos moldes em que é gerido actualmente, não passará do amadorismo. E por isso é impossível que mulheres talentosas possam vingar numa carreira desportiva. Nem sequer têm a possibilidade de ingressar numa carreira internacional porque, como diz e bem a andebolista, não há condições para evoluir a nível técnico, táctico e psicológico.

Portugal é sobejamente conhecido pela sua disparidade e desequilíbrio em certas áreas. Isso está correlacionado com a mentalidade retrógrada da maioria dos portugueses. Algo que se verifica com grande incidência no que toca à discriminação da mulher na sociedade, seja em casa, no trabalho, na política ou até no desporto. Mas depois todos se regozijam quando vêem aprovadas leis que obrigam à inclusão da mulher. Mas em que século vivemos? No século XVIII? Em que país vivemos? No Sudão? Proclamamo-nos como um país de 1º mundo, europeu, desenvolvido e depois temos de ser “obrigados” a tratar de igual forma as mulheres?

O desporto feminino em Portugal, não tem só um problema de falta de aposta, de falta de investimento. Tem um problema gravíssimo que está directamente ligado à mentalidade dos dirigentes, adeptos, patrocinadores e comunicação social. Mentalidade essa que quando se vê confrontada com os factos se apressa a fugir às responsabilidades e a dar como argumentos medidas avulsas que pretendem apenas “tapar o sol com a peneira”. No voleibol, tenho a certeza que se alguém criticasse a FPV pelo abandono da modalidade no género feminino, os seus responsáveis viriam logo dizer que até contrataram uma treinadora cubana de renome para as selecções. Como se isso resolvesse alguma coisa.

Temos provas de que há mulheres tão ou mais talentosas que os homens em várias modalidades. Mulheres essas que podem levar bem alto o nome de Portugal, tornar-se modelos para os mais jovens e contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e rica. Mas insistimos em deixá-las cair, desperdiçando assim um capital que elas nos podem oferecer. No voleibol temos imensas atletas com potencial para crescer e estar entre as melhores. Infelizmente elas não têm condições para evoluir, nem oportunidades para se mostrar. Não há possibilidade dos clubes participarem nas provas europeias, e a selecção nacional é tão fraca e esquecida pela FPV que as melhores abdicam de a representar.

Chega de palavras vazias e de atitudes hipócritas que nada resolvem. Está na altura de haver uma verdadeira revolução de mentalidades. É hora de começarmos a olhar para a mulher e cumprirmos o que está estabelecido no acordo da ONU: “A mulher deve ter o direito à igualdade e a estar livre de todas as formas de discriminação“. Deixemos de olhar, gerir e pensar o desporto feminino – em particular o voleibol, que é o mais praticado – como se de caridade se tratasse. Vamos apostar forte e confiar nas capacidades das nossas mães, irmãs, filhas, primas, sobrinhas ou amigas. Elas têm esse direito.

Nota: Aproveito para deixar aqui também uma curta e interessante entrevista feita há uns tempos pela revista “a página” à Prof. Paula Botelho – Presidente da Associação Portuguesa Mulheres no Desporto


Sovolei Vídeos

04/01/2010

O site de voleibol – único em Portugal exclusivo desta modalidade, a 2ª mais praticada no país a seguir ao futebol – para o qual colaboro, o Sovolei, começa 2010 em grande e dá hoje mais um importante passo.

Depois de cumpridos objectivos como a ultrapassagem de 1000 visitas diárias (30.000 visitas/mês) ou a organização de eventos (como o 3º Torneio Município Trofa), o Sovolei sobe mais um degrau e abre oficialmente o Sovolei Vídeos através do Youtube.

Este canal deverá servir para a divulgação de vídeos realizados pela equipa do Sovolei, pelos seus leitores, ou por qualquer adepto do voleibol. Para que possam ser publicados, os vídeos deverão ser enviados para videos@sovolei.com


Uma solução para o voleibol

28/09/2009

Como interessado no desenvolvimento do voleibol em Portugal, e analisando a realidade da modalidade no nosso país, sugeri uma hipótese para solucionar o problema, escrevendo este artigo de opinião no Sovolei.

Em Portugal a modalidade de voleibol, comparada com outras, é de uma pobreza extrema. E isto passa-se em todas as áreas que envolvem a actividade desportiva. O voleibol não tem comparação sequer, com outras modalidades praticadas no nosso país. Isso vê-se bem se analisarmos os resultados obtidos em competições de nível internacional. De 5 em 5 anos temos uma equipa que faz pequenas surpresas no estrangeiro (Castêlo da Maia, Vitória, CA Trofa, CD Ribeirense). Temos, todos os anos, equipas que têm direito a participar nas provas europeias e abdicam. E porquê?

Actualmente, os clubes pagam tudo. As despesas são com os atletas (mesmo quando estes estão ao serviço das selecções), os árbitros, as viagens, as estadias, os pavilhões, etc. E, hoje em dia, que clubes podem suportar isto? Só temos meia-dúzia de clubes totalmente profissionalizados e mesmo esses perdem dinheiro com o voleibol. Conseguem é suportar-se noutras receitas, vindas principalmente do futebol (como SL Benfica e Vit.Guimarães) das autarquias ou dos governos regionais (casos de CD Ribeirense e CS Madeira). Esta é a razão para o nosso voleibol ser tão fraco.

Podemos com toda a certeza dizer, que a modalidade sobrevive apenas por causa do esforço tremendo dos atletas, do trabalho incrível dos técnicos, da dedicação imensa dos directores e da muita carolice de outros amantes da modalidade. Para quem gosta de voleibol e vive esta modalidade com paixão, chega a ser cruel a forma como são (des)tratados todos estes intervenientes, pelas autoridades que têm a responsabilidade de gerir o voleibol.

Parece-me evidente que passados tantos anos, a solução só pode passar por criar uma Liga de Clubes, para que seja esta a gerir os campeonatos nacionais. Assim, os reais interessados (os clubes) poderiam fazer um melhor trabalho, já que sabem bem as dificuldades e necessidades que têm. Mais ainda, sendo eles os interessados zelariam sempre pelo seu desenvolvimento em vez de andarem a trabalhar em prol de objectivos pessoais ou políticos. Em conjunto, os clubes saberiam gerir melhor os horários das partidas, as transmissões na TV, as incursões nos orgãos de comunicação social, os direitos publicitarios, etc.

Em todos os países – que são actualmente as maiores potências do voleibol – existem Ligas de Clubes que organizam os campeonatos nacionais. Na Europa, veja-se bem o exemplo da Itália que é talvez o expoente máximo do voleibol europeu. Basta visitar e pesquisar um pouco o site da Liga (feminina: www.legavolleyfemminile.it e masculina: www.legavolley.it), para se perceber o porquê da dimensão do voleibol neste país.


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